terça-feira, 20 de setembro de 2016

Pé Ante Pé

Andam pela rua em um passo desigual. Param em frente a vitrines como se houvesse interesse, apenas pra tentar recomeçar em sintonia. Quase. Quem sabe é este. Quem sabe é ela. Uma vitrine confusa, manequins sem cabeça em roupas estampadas, demasiadas quinquilharias por todo lado. Loja de $1,99. Barato, banal. Ainda assim. Quase. Pode ser. Ela. Ele. Na loja ao lado, depois da insistência no alto-falante sobre preços e promoções, um curto silêncio e a música. Ele retesa o corpo, ela muda o peso do corpo de pé. Será que? A música não fala de amor. Alguém suspira, em alívios. Já não há espaço ou tempo para isso. Acertar o passo bastaria. Vais por ali? Pra onde vais tu? Por aqui – e porque falamos na segunda pessoa, pensa ela, sabendo a resposta. Vou contigo mais um pouco. Desde que não se fale de amor, pois claro. Andam devagar, como se pudessem descobrir o que é preciso antes de chegar lá. Um estende a mão, recolhe antes que o outro perceba, o outro tateia o vazio. Mais uma vitrine desinteressante, a parada que arrasta o encontro, a fumaça, o centro da cidade sempre cheio, os esbarrões bem vindos que forçam que seus corpos se aproximem.  Há tempos não tomo caldo de cana, diz ele, forçando na voz uma certo distanciamento analítico quando passam em frente a uma série de lanchonetes. Pena que não tens tempo hoje, ela diz, como quem espera ser desmentida, zombando internamente se si mesma e do insistente uso da segunda pessoa do singular. Até poderia, se já não tivéssemos passado… agora é um balé delicado. Negar como quem afirma, deixar espaços. Vamos voltar, ainda estamos perto, diz ela – primeira pessoa do plural. Quem sabe é ela. É ele. Um estende a mão, o outro aperta antes que seja recolhida, os passos desiguais no mesmo ritmo, a lanchonete apertada, o caldo de cana gelado, pastel com azeitona, a placa avisa: cuidado com o caroço, eles riem, alguma conversa, joelhos se tocam embaixo da mesa. Não há como saber. Não há um ele. Nem uma ela. Há, se e quando, nós.

2 comentários:

Renata Lins disse...

Ganhei esse cartão do meu irmão num aniversário. Com uma legenda "Ren, olha a gente em Paris, nos idos de 1950..."
Beijos.
(sei, não foi sobre o texto. ia ser, mas a imagem me desviou).

POWER GIRL disse...

Que lindeza, a delicadeza das palavras... tudo lindo, adorei seu espaço! :)

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