sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Vaias e outras digressões

Hoje tem abertura das Olimpíadas. Prevejo dias de imersão no evento. Eu vejo tudo que consigo, eu torço, choro, fico envolvida. Há quem despreze o esporte como coisa menor. Tudo que o ser humano faz me toca de alguma forma. O que se coloca numa competição deste alcance me comove. O esforço, a concentração, os sonhos, as transformações, a entrega. Fico extasiada coo quando vejo uma pintura. Um bom livro. Uma bela música. Em Portugal, diz-se: "Silêncio que se vai cantar o fado". É este silêncio reverente que faço ante a beleza e potência do esporte.



Estava assistindo o jogo do Brasil de futebol masculino contra a África do Sul. Terminou empate, 0 a 0. E tome vaia, no estádio.  Entre os comentarias de rede social, o veredito: vaias merecidas, perderam gols, não venceram o jogo. E eu fiquei bem incomodada. Alguém consegue imaginar vaiarem uma ginasta que caia de um aparelho?  Vaiar um saque errado? Vaiar o time de basquete porque não venceu a partida? Vaiar o ciclista que esbarrou, o nadador que queimou largada, o corredor que tropeçou? Não, né. A idéia é valorizar cada um que está ali, tentando superar os competidores mas, principalmente, superar a si mesmos. Aplaudimos porque acreditamos que eles estão fazendo o melhor possível. Esse pressuposto parece não valer para os atletas que jogam futebol. As vaias indicam, no mínimo, que se acredita que eles deviam dar alguma coisa que não estão dando. Ou que, no caso do time de futebol, não basta fazer o melhor possível, não basta esforço, superação, tentativa, empenho, sonho. É preciso o resultado. A vitória. A superioridade inegável concretamente estabelecida. Ah, mas eles são profissionais. Os jogadores de tênis também. Mas eles vivem disso (ué). Mas eles ganham muito dinheiro (os jogadores de basquete, não, né). Mas eles tem toda estrutura. Os jogadores de vôlei, não? Sei não, mas tenho a impressão de que a forma como torcemos no futebol masculino faz com que este seja um esporte que não cabe nas Olimpíadas.

Uma ginasta de 41 anos. Eu poderia fazer um textão sobre ser mulher no esporte, sobre o papel designado à mulher que envelhece, sobre a dificuldade de superar padrões e expectativas, sobre ter um filho e continuar competitiva, sobre a coragem de a cada dia testar seu limite, sobre as possibilidades do corpo e os limites e a entrega, mas eu vou apenas dizer: Oksana Chusovitina.


Parabéns, Adry


Existem, nas nossas vidas, as pessoas amigas, aquelas que amamos, com quem nos importamos, a quem queremos que tudo de bom aconteça. Aquelas para quem contamos nossos sonhos e lamentamos nossos planos. Aquelas que nos apoiam e a quem apoiamos. Aquelas com quem rimos e choramos e partilhamos. Aquelas pessoas que nos comovem, nos inspiram, nos animam. E existe a Adryana Estácio Trummer na minha vida. Que é tudo isso. E é, também, a pessoa pra quem eu ligo na maior dor e em quem se penso quando quero partilhar uma grande alegria. A amiga dos momentos inesquecíveis e das belas miudezas cotidianas. A amiga do abraço-ninho e da palavra-estrada. A amiga do conforto e da possibilidade. Não há palavras para nomear tudo de bom que espero pra sua vida. E pra designar o tanto de amor que espero que lhe envolva quando o bom não for possível e o doer, inevitável. O voto mais bonito e profundo que já ouvi, guardo-o para repetir para quem amo e que sei que o entenderá: que a terra, amiga, lhe seja leve.

Um comentário:

Isa disse...

Nossa, não podia concordar mais com a tua opinião sobre o desporto, adoro, mesmo. E muito boa a reflexão sobre o futebol, dá bem o que pensar, porque será que é tão diferente, porque também eu me pego agindo assim, precisamente, como se eles não estivessem lá dando o sangue... E porque será que acho que às vezes não estão, as favas contadas e tal...

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