quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Uma porção de ambrosia

Ontem o Zimbabwe perdeu de 6X1 pra Alemanha, no futebol feminino. E a expressão no rosto da jogadora do Zimbabwe é um dos motivos pelos quais as Olimpíadas são, para mim, um momento de vinculação com a (minha) humanidade. Basopo é o nome dela. O gol e o rosto. O lampejo que distingue, exalta, transcende. A alegria. A conquista. A superação do que nos é falho, fraco, faltoso. Transitório. E inesquecível.

Outra coisa incrível: a vila olímpica. As pessoas juntas. O bate-papo. A sexualidade livre. A informalidade. A cumplicidade, temporária, fortuita, incomum. Os encontros. A aprendizagem do possível.

Um corpo cuja beleza não se dá pela adesão a um padrão, mas pela possibilidade de alcançar um propósito. Há coisa pra pensar. 

Há quem goste de esportes e, por isso, os pratique. Eu gosto dos que os praticam e as competições são estas liturgias que mesmo não partilhando a fé, aprecio com reverência e encanto.

No Olimpo, os deuses. Poucos como Formiga. Atleta. Jogadora de futebol. Incrível. A história do futebol feminino em carne, suor, esforço, entrega, sorriso. Formiga. Nunca houve futebol olímpico feminino sem ela. Já pensou o que é participar de todas as versões das olimpíadas desde que seu esporte foi incorporado? Persistente. Talentosa. Valente. 



A gente assim. Mesmo que nunca tenha sido. Eu sei tudo que não está na imagem. Sei os dedos entrelaçados. Sei o rosto de um virado pro outro enquanto o outro espia o mar. Sei o movimento discreto com que alternam o foco. E o riso no canto da boca quando os olhos se encontram meio sem querer, embaraçados de se quererem bem tanto assim. Sei o vento redesenhando a canga frouxamente amarrada no pescoço. Sei a bermuda discreta, a camisa que também é filtro e o gosto de protetor solar na curva do pescoço. Sei a impressão de que está tudo bem. A sensação de que devia ser sempre aquele momento. E, ao mesmo tempo, o gostoso de levar a cumplicidade por onde vão. Sei o morno da água e a surpresa gostosa de um e o sorriso convencido do outro, eu te disse. Sei o instante em que se desenroscam dedos e se parte, levando o sal, o horizonte, o azul e a memória como uma liga a mais entre eles. 

Você faz parecer fácil. Simples. Óbvio. Faz parecer que sim. Queres. Quero. Queremos. Eu quase acredito. Suspiro. 


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