quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Quem Morreu?


Eu cresci vendo aqueles filmes americanos de tribunal. E eu ficava, ao fim de todos e de cada um, consolada com a idéia de que se a gente apresentasse direitinho, com clareza e com provas suficientes alguma coisa, o justo seria feito. Não que o justo fosse sempre o certo ou o bom. A gente, expectador, podia saber que alguém era culpado ou inocente, mas não era isso que importava,  era preciso que fosse provado e apresentado claramente o caso. Sem uma dessas duas condições, o resultado podia ser até diferente do resultado certo, mas era considerado justo. E subiam os créditos.

Claro que, vez ou outra, eu ficava encafifada com a premissa silenciosa: as pessoas que constituem o júri realmente escutam e, apesar de seus pendores ou interesses pessoais, seguem o que é dito e provado. Mas o que acabava por minimizar essa inquietação era a única fé que tenho (tinha): fé no homem. Não tenho nenhuma fé em qualquer força transcendente. Não acredito em nnhum deus. Mas sempre, sempre, escolhi acreditar nas pessoas. Na complexidade das pessoas. Na possibilidade de sermos escrotos em algumas coisas e sublimes em outras. E, assim, se fazer plausível a idéia de que alguma contemplação de justiça, mesmo falha, sustentada no argumento e não na Verdade, fosse possível.

Hoje, o Senado vota, com descaramento, um processo de impedimento da presidenta onde nem a acusação se deu ao trabalho de disfarçar qualquer crença na existência de um crime real. Não é preciso provar nem argumentar. Se faz o que se faz, o impedimento, apenas porque se pode. Porque se quer.

Não sei se morre a Democracia brasileira, como algumas vezes tem se dito. Não sei fazer macro análises. Não vejo tão amplo, não sou suficientemente bem informada. Mas morre muita coisa em mim. Ou vai, em estado comatoso, pra UTI. Não diz respeito a ninguém mais e não demando compreensão ou empatia. Diz respeito apenas a mim e me preservo o direito de sentir e escrever neste espaço que é meu. Morre grande parte do que é bom em mim. Minha fé nas pessoas desaparece ou se fecha em concha. Consequentemente minha referência pra minha própria ação e existência. A utopia se faz memória e não horizonte.

Eu escuto a fala descarada da Ana Amélia. O cinismo empolgado do Caiado e simplesmente não sei como seguir. Não sei, mesmo, o que fazer na sala de aula na próxima semana. Não sei como agir no aniversário do meu afilhado daqui a 15 dias. Não sei como encarar cada amigo, cada pessoa na rua. Não sei o que colocar no próximo projeto de extensão. 

Leio várias pessoas que admiro com postagens corajosas e combativas. Mas eu realmente não consigo sentir nada de bom. Sinto um vazio. Diria mesmo um descompromisso comigo mesmo e com o mundo. Provavelmente alguém meneia a cabeça agora e justifica isso pela minha ultrapassada ingenuidade violentamente atropelada. Não ligo, de verdade, não ligo, dói demais perder a mim mesma. 

3 comentários:

Juliana disse...

Eu nem sei se compartilho exatamente do seu sentimento, mas seu texto me deu uma dimensão do que tô sentindo. Todo esse processo afeta a minha compreensão do mundo. Tô com esse vazio.

Renata Lins disse...

<3

Lais disse...

eu me sinto assim também... com a ingenuidade atropelada. :(

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