terça-feira, 30 de agosto de 2016

Primeira Pessoa do Singular

Eu queria muito te fazer feliz. Daí eu lembro que não acredito na felicidade e vou abrir mais uma garrafa de Lambrusco.

Eu realmente não sei o que me chocou e entristeceu mais nos últimos dias, se as pessoas que se orgulham de não sentir ou as que ignoram o pesar alheio em nome de uma necessidade de abstração teórica militante. Ou, sei lá, se as coisas se equivalem.

E essa areia movediça no peito.

Passei a viver “mas cenas do próximo capítulo” já faz um tempo e não consigo sair dessa dinâmica. Olha, não recomendo.

Não rebolar expectativas nossas nos outros é um excelente conselho. Mas é foda quando você se doa toda para preparar uma prova que seja mais do que um mecanismo de indicar notas, que potencialmente seja uma etapa significativa do processo de aprendizagem, e os alunos devolvem o material em menos de meia hora.

Eu tenho uma honesta e irrestrita inveja de quem sabe contar histórias. Desde o colégio. Eu era boa, muito boa, em fazer as tais redações descritivas e principalmente as dissertações, mas escrever um texto narrativo sempre foi o calcanhar de Aquiles.

Estou vendo a série Chef´s Table, muito depois de todo mundo. Não que isso seja um problema porque há experiências absolutamente solitárias e ver este programa tem sido assim, pra mim. Eu certamente não conseguiria (não conseguirei, já que insisto) falar com clareza do que a série me traz. Quando o último chef da temporada 1 falou que comida é uma arte que se perde se não for reinventada e digerida (ou algo assim) eu me comovi demais. Comer é muito mais do que colocar nutrientes em mim. É das coisas que mais me remetem à minha humanidade. O que escolhemos comer, quando comemos, onde, com quem, como tratamos os ingredientes, as técnicas de transformação, tanta, tanta coisa construída, historicamente forjada, tanto aprendizado, tanta beleza. Eu assisto cada episódio como se estivesse deitada no colo de Vigotski. E tem mais. Tem a angústia de ver a única chef mulher da primeira temporada cozinhar escondida para que os clientes apreciem a comida sem questionar a qualidade por causa do seu gênero. Tem a tristeza de perceber como uma profissão tão estimulante parece restrita a quem já vem com vários privilégios de fábrica. E o deslumbramento com os pratos e suas narrativas, claro. Eu salivo assistindo. Fantasio sabores. Se essa rua, se essa rua fosse minha eu ia em cada um. Se eu tivesse pedrinhas de brilhante comeria com os olhos, diariamente.

Não sei se fico contente ou arrasada porque nunca me acontece nada e o que acontece eu transformo em feijão com arroz.


2 comentários:

Gilson Rosa disse...

Eu gostei demais do programa. E eu DETESTO risoto. veja bem. e a serie abre com um fazedor de risotos dizendo que salvou uma cidade depois de um terremoto fazendo risotos. Achei que era uma indireta mas fingi que não era comigo, claro. A chefe mulher também me emocionou muito ( é nicky o nome dela ? to com preguiça de googlar ) e eu gostei muito também do argentino do fogo ( a paola aprendeu os lances de enchilhadas queimadas com ele ) mesmo o achando muito cretino. Eu ia dizer uma coisa mas eu esqueci. Lembrei: queria que vc cozinhasse pra mim um dia.

Luciana Nepomuceno disse...

Amore, eu fiquei apaixonadinha pelo cara do risoto, tipo queria casar com ele e com aesposa (acho que é Lucy? ou viajei). E detestei o homi das fogueiras, mas fiquei desejando loucamente aquele peixe na argila e aquela abóbora desenterrada, affe. Essa série faz isso comigo, mesmo quando não estou gostando, estou pensando.

E adorarei cozinhar pra você, papeando enquanto o fogo faz o trabalho...

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