quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Garrafinhas Olímpicas 10: Amar É Sofrer

Viver é sentir, eu sei, você sabe. Mas amar é além. Amar é se abrir pra o doer. Entre tantas outras razões, porque amar é permitir-se a vulnerabilidade. É estar sensível para o outro. O outro nos dói em ausências, mesmo quando está, em uma angústia de futuros ou na melancolia dos passados. O outro nos dói pelo que ele pode nos tirar de alegrias por ele apenas ser ou estar. O outro nos dói por oferecer uma ilusão de completude e por nos jogar na percepção da falta. O outro dói, dói, dói. Mas o doer do amor mais intenso não é pelo outro, mas com o outro.

Quando amamos nos importamos. Nos implicamos. A anatomia fica louca, somos todo coração, mas também pele e nervos e sangue. Nosso coração falha quando o outro perde o sorrir. Nossa perna fraqueja quando o outro se cansa. E depois do depois o que queremos é afagar, acolher, garantir que tudo vai ficar bem. E isso também dói, porque não sabemos. Não há garantias. Muitas vezes, não fica tudo bem. Algumas coisas melhoram, outras não e seguimos com a falha gravada na pele. E dói a nossa impotência.

Eu aprendi a amar o vôlei feminino. Aprendi a amar o Zé Roberto. Amei quando ganharam onze vezes o Grand Prix. Amei quando perderam mundial pra Rússia em 2006 e foram chamadas de amarelona. Amei quando ganharam a medalha de ouro em Pequim e repetiram isso em Londres. Amei em cada jogo desimportante que passa nas madrugadas da tv a cabo e em cada decisão televisionada em grande estilo no horário nobre. Amei reconhecendo a presença da alegria e, principalmente, a possibilidade do doer  E, ontem, doeu. 

Meu coração machucado, as lágrimas da minha frustração, a esperança esmagada, a perplexidade. Dolorida por causa delas. Mas não só. Dolorida com elas. Pelo coração machucado delas, pelas lágrimas de frustração delas, pela impossibilidade de alcançar. Pela necessidade de seguir, que se impõe. Pela compreensão do momento para sempre perdido e a possibilidade de que seja a última olimpíada de algumas. Seilla e Fabiana se despedem. Jaqueline, talvez. É duro. Foi duro. Mais sentido, penso, porque apesar de improvável, não muito contestável. A China jogou muito. A seleção brasileira lutou e fez o melhor que podia. E não foi o bastante. Não foi o bastante sacar com força, defender com atenção, vibrar, atacar com disposição, apoiar uma à outra, ouvir o técnico, tentar, arriscar. Não foi o bastante. Não foi suficiente. A insuficiência de quem amamos nos dói. Me dói.

Eu não fiquei pra ouvir as entrevistas. Quem sabe hoje pego alguma coisa. Ontem prefei o balançar soluçante dos ombros da Jaqueline, no abraço da mãe. A dor. O amor. A nossa humanidade. Uma Olimpíada também é feita dos inalcançáveis.


 Ontem foi um dia de derrotas doloridas assim. Com Fabiana Murer, uma atleta incrível que nunca conseguiu estar bem nas competições que tem visibilidade no Brasil. Seus recordes, suas vitórias, seu campeonato mundial, tudo isso parece se dissipar ante os três saltos falhados. A saída do handebol feminino, tão vitorioso e preparado. A derrota, nos penâltis, da sofrida seleção brasileira feminina de futebol. Larissa e Talita, favoritas, perdendo o lugar na final e tendo que respirar e dar a volta por cima pra disputar o bronze. O alento das medalhas de prata do Isaquias e de ouro do Robson.

Olimpíada também é vida que segue. Então, a programação do dia:
  
09h – taekendô
09h16 – canoagem (canoa 200m)
09h44 – canoagem (caiaque duplo)
09h58 – caiaque individual feminino 500m
10h – handebol masculino
10h – hipismo
10h16- Luta olímpica
11h – polo aquático feminino
13h – futebol masculino
22h00 – vôlei de praia feminino (bronze)
22h15 – volei masculino (quartas de final)
00h – vôlei de praia feminino (finais)

Um comentário:

Marissa Rangel-Biddle disse...

O que levarei pra sempre daqui do Garrafinhas: Marta é melhor que Mia Hamm. Aprendi. Nunca mais cair naquele lance de play like a girl, etc.

No mais, ainda bem que estou em trânsito senão, não teria coração para o vôlei.

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