segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A Dama Dourada, Les Revenants, o Impeachment e as Perdas

São duas linguagens. Dois enredos completamente distintos. Dois produtos de qualidade diversa. A Dama Dourada não é um filme bom. Também não chega a ser ruim. Sobre Les Revenants, ao contrário, não paira dúvida: para mim é uma série sensacional. Mas os dois chegam juntos neste post porque falam, acho, de muitas coisas em comum.

O filme

A Dama Dourada acompanha a tentativa de uma austríaca, residente nos EUA, de recuperar bens perdidos durante o domínio nazista na Áustria, inclusive um quadro de Klimt.

O filme tem muitos aspectos fracos ou inconsistentes: os enormes saltos que a gente não acompanha nas motivações dos personagens, por exemplo. Porque a esposa passa a apoiar a empreitada do jovem advogado? Porque a personagem da Helen quer e não quer o processo assim, num estalar? O que acontece na Áustria para fazer o jovem advogado mudar de ideia? O horror do nazismo ou o horror da burocracia indiferente e cínica? Há diferença real entre estas duas coisas?

Mas a gente continua assistindo porque também tem coisas boas: Helen, claro. E as cenas em Viena. Cada lugar lindo que eu fico sem fôlego. E, mesmo en passant, o ensinamento sobre a ferida aberta de sempre: o absurdo foi apoiado, acolhido, amado. Choca. Ainda mais quando sentimos como foi tudo tão recente. O filme não joga no passado o nazismo, o fato da personagem central ter tido contato com o nazismo já adulta e ainda permanecer viva no decorrer da trama faz com que reconheçamos a proximidade do evento.

Talvez se o filme fosse dirigido por Steven Spilberg fosse melhor porque ele consegue dar consistência à história do cara simples guiado por valores enormes, maiores que ele, tão grandes que às vezes ele mesmo nem consegue dar conta. E também é bom em fazer o drama pessoal contar a História de H maiúsculo e não a disfarçar – aspecto em que esse filme se perde, fazendo parecer que é uma questão de cunho pessoal e minimizando as questões estruturais no decorrer da trama, além de cair na usual esquemática divisão EUA livre e justo X resto do mundo malvadão, sem reconhecer que a burocracia do processo nos EUA também teve impacto nas decisões tomadas pela requerente e seu advogado.

A série

Eu fiquei indecisa sobre ver Les Revenants já que eu não ligo muito para os mistérios. Talvez, por isso, séries como Lost não me cativam. Mas vi e fiquei contente com isso. Em Les Revenants, o mistério é o que menos me interessa. Porque eles voltaram? Porque comem tanto? Porque uns são legais e outros quase parecem zumbis? Qual é o papel da represa? Seria legal descobrir as respostas para estas coisas, mas não é isso que me faz desejar mais um episódio, mais uma temporada. Eu gosto dos personagens. Da tristeza deles. Da crueldade. Da força. Do afeto. Dos medos.

Resumidamente a série mostra a volta de pessoas que morreram. Cada episódio é centrado em um dos ressucitados, sua morte e seu retorno. Mas as tramas se entrelaçam. Os ressuscitados simplesmente aparecem, com a mesma aparência  que tinham quando morreram. Eles desconhecem que morreram. Simplesmente chegam esperando que a vida esteja exatamente como estava. E, claro, não está.

A volta de cada personagem faz pensar sobre importantes questões humanas. A maternidade. O luto. O que dá a liga nas amizades. As expectativas. Todos os problemas causados pelo retorno, não porque as pessoas são boas ou más ou zumbis assustadores, mas apenas porque a vida seguiu e eles agora parecem não ter lugar. Qual o lugar dos fantasmas nas nossas vidas? Como agir quando um grande desejo se realiza mas não cabe na nossa rotina? Como não ter medo do desconhecido?

O clima de Les Revenants, a forma da vila funcionar, me lembra as cidades que passaram por grandes catástrofes/tragédias, furacões, terremotos, atentados. Como se segue carregando tantas perdas? Como construir um futuro a partir dos escombros das casas, dos sonhos, dos afetos?

Acho que a coisa mais triste, uma das que mais me tocou, é quando uma das personagens ressuscitada pergunta pra outra: porque há ressuscitados que parecem “normais”, iguaizinhos a quando eram vivos e outros retornados parecem meio zumbis? E o outro responde: eles não tinham ninguém esperando por eles. E tem tanto isso, nosso estar vivo é em relação. O olhar do Outro. O Amor do Outro. A existência do Outro.

Um e Outro


 A Dama Dourada e Les Revenants falam de perdas. E do que fazemos para lidar com elas, seja rejeitando, acolhendo, encobrindo. Como vamos nos recompondo. Como a vida se impõe. São histórias de perdas e de como aprendemos – ou não – a viver com elas. Como elas nos fazem ser. Como doem. Como possibilitam. Seja a perda de alguém que amamos, seja a perda das referências de identidade, seja a perda do lugar de moradia, a perda de um objeto ou de memória. Como olhamos o abismo e resistimos a ele. 

A ausência estrutura. É a partir da relação com a falta que nos construímos, que nossa subjetividade se forja, que mudamos o mundo e ele nos transforma. Mas é, também, a ausência que nos imobiliza. Que nos tira perspectivas. Que nos machuca. Filme e série me fizeram pensar na incompletude, cada um a seu modo. Acho que valem a sessão.  

E o impeachment?

Se o Senado decidir pelo impeachment é o acolhimento da barbárie e da violência como solução. O impeachment é o rompimento da barragem. Perderemos. Perderemos em dignidade. Em conquistas. Perderemos a frágil democracia que tantos lutaram para conseguir. Perderemos o rumo. O prumo. O que nos restará é água empoçada e um monte de morto regressado.

A ausência promovida pelo eventual impeachment nos convoca. Será preciso reconstruir a partir dos escombros. Não se trata apenas de identificar as marcas do passado violento nas estruturas do presente, como na Dama Dourada. Nem se trata de saber o lugar dos nossos fantasmas na recomposição da vida, como em Les Revenants. Será necessário enfrentar o vazio. Resistir enquanto a devastação opera. Não sei se estamos prontos. Mas sei que não nos resta escolha. 

2 comentários:

Renata Lins disse...

é.

Renata Lima disse...

Não sei o que dizer. Não tenho dito nada, porque sinto que preciso me preparar para o inevitável.
Tenho visto pessoas próximas, a maioria "antipetista" e pró-impeachment, falando sobre a cena da Dilma e Aécio tomando cafezinho no intervalo, e rindo, e dizendo "e você perdendo amizades por causa disso".
Sei que não perdi amizades, apenas afastei algumas pessoas que planavam ao meu redor como fantasmas, mas que já tinham ido.
E estou desde já lidando com o luto, porque ainda que fantasmas de um passado não distante mas, afinal, passado, eram fantasmas queridos. Colegas de faculdade, whatsapp, quantas perdas.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...