sábado, 30 de julho de 2016

Paisagem Interior

Há dias em que nada é muita coisa.

Demora pra voltar a caber confortavelmente no corpo, na casa, no dia, na vida. Demora tanto que esqueço de usar o possssivo. Meu. Minha.

E, mesmo dizendo tudo e tanto, saber que escrever é antes um desejo que uma verdade.

As coisas que não garanto em linhas e entrelinhas: verdade, coerência, precisão. Escrever é viver duas vezes, disse a autora, mas nunca garantiu que a segunda vez era uma reprodução da primeira.

Eu tenho dificuldade de reconhecer a tristeza. O desacordo. A inconsistência. A inadequação. Mas me dou bem com a solidão. Pra compensar, talvez.

Tem um link circulando com algo como “oh, Gilmore Girls tem um montão de coisas feministas". Não me espanta nada. O tanto que se perdeu de lá pra cá é que me apavora.

É que eu gosto de gente. Não exatamente de uma pessoa ou outra - gosto também - mas gosto das coisinhas que fazem nossa humanidade. As belezas. As fraquezas. Justamente o que não é natural. O forjado a duras penas. O conseguido num relance. A perversão da natureza. As pessoas sendo. Fazendo. Falando. Tentando. Tateando. Ontem passei um tempo em um pequeno salão de bairro. Mulheres conversando. Não passaria lá no teste Bechdel. Não passaria na peneira da militância web. Mas a vontade que eu tive de abraçar cada uma delas. A insistência em existir. Isso tudo me comove.

De vez em quando chegam, à praia, fragmentos de uma vida outra, que vivi. Fotografias, relacionamentos, lugares que continuam apesar da minha ausência. Alguns, inclusive, por causa dela. Não tenho nenhuma conclusão edificante sobre isso. Eventualmente, alguma curiosidade. Quase sempre uma saudade quase indolor. Mas fica a beleza. E aquela vontade de cantarolar com o Geraldo Vandré:



Uma das imagens que me marcou e permanece em mim (embora nem lembre mais onde li) foi a idéia de Roma. Uma cidade sobre uma cidade sobre uma cidade, sobre uma cidade, etc. Que coisa incrível, acho eu, a insistência da humanidade em ser. E, em cada escombro, as existências únicas e irrepetíveis. Cada vida. Cada pessoa que comeu, bebeu, suou, trepou talvez, sofreu, ansiou. Ardeu. Cada. Únicos. Nós.

Por outro lado, Matera (sim, o pensamento desliza). Que nem disfarça com escombros, vai se reinventando do neolítico até hoje, casas nas grutas, nas pedras, onde dá, a vida persistente em ser. 

foto daqui

E tem a amiga que me chama de amor e me marca em uma groselhice e todo o sábado parece ter existido para aquele momento. Tem aquela chamada na caixinha de conversa que faz repetir a surpresa: mas porque essa mulher tão foda gosta de mim? Tem a fofoca dolorida. Tem os comentários amorosos no blog desconfiado de existir. Tem a promessa do vatapá. O barulhinho da motoca da criançada na rua. A foto que chega, ligeira, sem legenda, com a implícita espera de cumplicidade. Um mundo pra chamar de meu. 

2 comentários:

Renata Lins disse...

essa paisagem. a que é relevante.

Isa disse...

"gosto das coisinhas que fazem nossa humanidade. As belezas. As fraquezas. Justamente o que não é natural. O forjado a duras penas. O conseguido num relance. A perversão da natureza. As pessoas sendo. Fazendo. Falando. Tentando. Tateando. Ontem passei um tempo em um pequeno salão de bairro. Mulheres conversando. Não passaria lá no teste Bechdel. Não passaria na peneira da militância web. Mas a vontade que eu tive de abraçar cada uma delas. A insistência em existir. Isso tudo me comove." e tu comoves-me com a tua comoção

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