domingo, 31 de julho de 2016

Ippon

Hoje eu comi torradas de um pão de iogurte que eu mesma fiz. Com uma generosa porção de manteiga se desmanchando e entranhando nelas. Um balde enorme de café. As persianas entreabertas e o sol, insinuante, tentando se espalhar por todo lado. Comi distraída, vendo Lorelai e me identificando com as personagens desastradas. Mouse em uma mão, caneca na outra. Mas sempre não é todo dia. Ontem mesmo montei uma mesa de café da manhã com jogo americano, suco de morango com manga, ovos mexidos, café com leite, cuscuz e uns frios e belisquetes. Mônica Salmaso na vitrola. Comer devagar, apreciando o sabor de cada coisa, dedicada a mim e ao meu momento. Ou pegar uma banana correndo antes de sair de casa. Ou um iogurte, colherzinha em uma mão enquanto se confere o necessário pra sair de casa. Das coisas boas de viver sozinha é essa plasticidade. O ruim é ver uma borboleta entrar pela janela, pousar na sua mão um momento e não ter ninguém pra apreciar o momento e a gente poder dizer mais tarde: é mentira, Terta?

Tem coisas nas quais eu acredito com tanta veemência que o comportamento me parece em desacordo com minha malemolência geral. Tem outras coisas (ou as mesmas?) que penso que, quando as pessoas discordam, só consigo achar que é piada.


Demorei a entender que mesmo cheia de amor pra dar, que nem a menina empolgada aí em cima, o resultado ainda pode ser atropelar a outra pessoa. 

Eu vou engasgando. Engolindo uma a uma as palavras de amor como se fossem as pílulas coloridas que os psiquiatras oferecem como entorpecimento. Com aquele lampejo de humor cada vez mais raro, penso que seria melhor se fossem laxantes. Grandes e sôfregos goles de água. Eu me afogo em impossíveis. Não dizer. Porque as palavras não são sempre pontes, não me engano mais, tantas vezes são mesmo retroescavadeiras.

Tem aquele lance de que as pessoas só percebem a felicidade depois que a perdem, depois do momento passado, depois, depois, depois. Pois bem, não. Eu tenho clareza de como a minha vida é boa. Tenho clareza dos meus privilégios de classe, por exemplo, e de muitos outros sem nome como, por exemplo, ser mãe de um adolescente que mora na cidade vizinha com o pai;e que vem visitar cheio de carinho e faz massagem no meu pé. Sei que minha autoestima meio surreal é resultante de um monte de amor que recebi e continuo recebendo. Sei que tenho um trabalho em um local de trabalho que favorece minha autonomia, minha empatia e minha rebeldia. Sei, sei, sei. Sei do calor na pele, do banho de piscina, da conversa que vira dia e noite com os amigos. Sei dos planos alcançados. Dos caminhos possíveis. Sei da comida boa, da bebida gelada, da lua cheia na janela. Sei tudo. E nada impede de, vez ou outra, sentir aquela rasteira inesperada e reconhecer: vida, vida minha, que Ippon, hein.

Imobilizada, costas no chão, ofegante, com aquela cara espantada de quem recebeu um golpe inesperado mesmo sabendo que ele poderia vir a qualquer momento, mesmo agarrando na manga do kimono da vida, mesmo movendo os pés feito balé, mesmo se defendendo com atenção, mesmo, mesmo, mesmo. Ou apenas: domingos.

4 comentários:

Renata Lins disse...

gostei das retroescavadeiras. e a imagem da criança é isso mesmo, né? não basta a (nossa) empolgação.
pra mim, o termo "privilégio" devia ser abolido. com seu retrogosto de religião e de joelho no milho. e individualista demais. sei, essa conversa é longa e não é pra aqui, mas deixo anotado. a gente ainda há de voltar a ela.
aqui, aí, acolá.
beijos. você sempre me faz pensar.

Luciana Nepomuceno disse...

Qual palavra você usaria no lugar de privilégio nesta frase? eu usei por falta de opção, não (mais) por apgo. Não foi no sentido de autopunição, como acho que dá pra perceber no parágrafo. Foi individual, não individualista, acho, porque não se refere a uma classe, mas a uma vivência específica (que me oportuniza coisas). Tô perguntando pra trocar mesmo :P

Isa disse...

Gosto cada vez mais de te ler e esse gif é delicioso :)

Esteffane Pereira disse...

Ainnnn,Lu. Coração arroxadinho aqui. <3

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