sexta-feira, 29 de julho de 2016

Ah, porém

Aquela última mensagem na caixinha que faz seu coração suspender o batuque.

Sei lá, eu lembro da Cristina. E como é tentador achar que repito, embora saiba que nunca cheguei a depilar as sobrancelhas. Alguma coisa me impede e eu tento acreditar que é bom. Isso ou encomendar uma lápide bem humorada: Aqui jaz o Homem de Lata.

Tem hora que demora voltar a caber no próprio corpo.

Existe toda essa outra vida. Ou outras. Que seriam se. Se ela tivesse a coragem de morrer de amor, cantou o Jobim. Só pra começar. Ou se ela soubesse latim, sei lá. Sempre me interessei por aqueles filmes ou livros que brincam com as possibilidades. Mesmo os mais toscos, que fazem isso de maneira causal e binária. A vida não tem script. Não tem roteiro. Não está escrita nas estrelas, apesar da Tetê na rádio cabeça. Nessa conversa, lembro do Kundera. Como a gente pode viver sem um esboço? É sofrido. Mesmo quando a gente escolhe a estrada que quer naquela hora, no passo que quer naquela hora, ainda assim outras horas virão com outros desejos e umas pontadas que alguns chama arrependimento. Eu chamo de curiosidade. Uma brechinha, se houvesse, para saber dessa outra vida. Ou vidas. Que seriam se. Se ela andasse de patins. Se risse menos e dormisse mais. Se ela dissesse sim. Ou não. Se ela ignorasse a mensagem. Se tivesse espelhos. Ou memória. Se usasse suspensórios. Se lembrasse dos chapéus e brincos que insiste em comprar. Se comesse chuchu. Ou não bebesse cerveja no pé sujo pertinho da faculdade. Se pudesse, por um dia, esse amor, essa alegria, como na outra canção do mesmo Jobim. Se ela tivesse entendido. O bilhete, a carta, o telefonema, a dedicatória no cd. Tanto faz. Se ela tivesse feito. Se tivesse saído mais cedo. Ido em outro fim de semana. Amado as pessoas como se não houvesse amanhã. Se tivesse calado a piada. A cantada. Se soubesse. Os suspiros, a receita, o caminho. Se ela tivesse fechado a persiana. Os braços. A boca. Não entra mosca. Outra vida. Outras vidas. Que seriam, se.


Porém, ah, porém, como na voz do sambista. Tem dias que as coisas apenas parecem ser exatamente o que deviam ser. Que a gente sente exatamente o que parece que devia estar sentindo. Que tudo chega bom e fácil. Que silêncio ou palavra, tudo ecoa suave, no peito. Preciso. Tem dias que são como se sempre fossem. Como se fosse possível. Dias em que ninguém precisaria avisar que não quer sofrer, apenas não se sofre, nem chora. A gente até esquece que está sorrindo. Não há ansiedade ou angústia. Nem arroubos de felicidade, também. Dias de contentamento e conforto. Como beber cerveja na chuva e achar que, sim, a vida devia ser bem assim.

Às vezes, quando passo um tempo sem escrever/postar, me dá um certo pudor. Ruboriza a letra nua ante a ideia de um olhar que se tornou estranho. 

Um comentário:

Paula Alves disse...

muito bom teu texto, Luciana.
inclusive, anotei algumas frases para me servir de inspiração.
forte abraço.
paula alves
paulabarista.com

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