quinta-feira, 16 de junho de 2016

Um Bolso Cheio de Sementes

Tem o outro. O amor da história que já pode ser contada. Da história que já acabou, mas vai ficando, porque o bem querer concede uma prorrogação. O amor da história tão certa, tão elegantemente redonda. Já tem caixa de cartas amareladas, já tem retrato esquecido entre páginas de livros, já tem pequenas e ternas anedotas, já tem aquela pausa antes do nome como se eu quase fosse esquecer, ele, os lugares, o enredo, aí o sorriso, a satisfação da recordação, ponto e vírgula, já tem tudo pra ser passado, já está preparado, já dá pra contar a história toda. Embora ele tenha se esquecido de ir embora, o amor da história que já pode ser contada. 

Uma história tão pronta pra ser memória que a gente até se surpreende que tem epílogo. Que se estica em cada telefonema às 18hs. Que se alonga em pequenas gentilezas. Em desejo morno na pele. O amor da história que era pra ser uma crônica, vá lá, um conto miúdo, nunca um romance. A gente até lembra o Veríssimo, “está bem, está bem. Tem uma moça que eu vejo mas nem se pode chamar de amante. Pelo amor de Deus! É só meia hora de três em três dias. E ela é bem baixinha. "Amante" seria um exagero”. A história de amor com cadeado pronto. Tem tudo, a história finalizada, vírgulas, parágrafos, encontros, despedida, fins de semana na cama, pausa para algum suspiro, risadas eventuais, dois pontos, flores, velas, neve, estrada. Oceano. Tem até prólogo. Suspense, aventura, algum drama. Todas as palavras já foram escolhidas. Todos os sentimentos foram cadastrados. Todas as falas foram revistas, estudadas e aprovadas. O amor da história que já pode ser contada. Que vai ficando por aqui, talvez por inércia.



Um bem querer girassol. Daqueles que se inclina, fácil, em direção ao bom. Que procura a luz. Grande demais para ser bonito. Mas a gente até esquece isso, alegre porque existe. Um bem querer que nem repara como destoa do jardim. Enorme. Meio desengonçado. Sem saber da vida útil. Ou inútil. Apenas é. Quente. Se a gente chega perto o bastante, ali, entre pétalas amarelas, no coração morno em sementes, bálsamo, pode-se ouvir o riso solto. Um bem querer girassol, que sabe que a noite chega, mas permanece, ativo, altivo, no por enquanto. 

Preciso me mudar. Não consigo viver nesse condomínio sem participar das reuniões e participar dessas reuniões diminui minha vontade de viver.

No princípio era o verbo e o verbo era um deus. Bem expressivo, aliás. 

Às vezes eu lamento não acreditar em deus, juízo final, céu, essas coisas. Bem queria chegar lá com meu sorriso cheio de dentes e responder, serelepe: - E na Terra, o que você fez? - Amigos. 

Das ternuras que evoco: você me alimenta, me nina, me cuida, me veste. Dentro do roupão espesso, sacudo os bolsos enormes e encontro, em espanto, um punhado de sementes. 



Então eu vou. Esquecer minha cabeça no seu ombro. Acolher seu sono no meu colo. Vou entrelaçar dedos. Vou roçar lábios. Vou saber gostos. Então eu vou me fazer estrada para ser percorrida, néctar para ser sorvida, alimento para ser devorada. Vou aceitar mãos, língua, dentes, dedos, inquietações e saudades. Então eu vou. Sussurrar vontades. Espalhar riso na casa. Entreabrir janelas e joelhos. Vou encostar pé no pé. Morder aquela parte carnuda da mão. Soprar os pelos do peito. Falar bobagem. Contar vantagem. Então eu vou fazer samba a noite inteira. Respirar entrecortado. Explicar tudo de novo. Oferecer consolo. Deixar rastros. Chorar fronteiras. Olhar pra trás.  Então eu vou. Então eu vôo. 




Um comentário:

Renata Lins disse...

chorei.
pela história tão lindamente contada,
pelas lembranças que não são minhas,
ou pelas minhas mesmo?
quem saberá.
(eu já te disse que tu escreve bem que só?)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...