domingo, 12 de junho de 2016

Tempos

Eu sei bem o que tive – e com sobra – na infância e adolescência. Amor, principalmente. Do tipo que aceita, acolhe e dá aquele bem estar com a gente mesmo que segue vida a fora e confere uma certa arrogância, raramente autopercebida, de merecimento. De felicidade, principalmente. Tive sertão. E mar. Tive irmãos, primos e amigos. Lugares para ir e livros para ficar. Livros variados. O que eu pudesse alcançar na estante, o que me deu algum horizonte. Uma formação cristã, na época em que isso significava mais afinidade com a cultura ocidental de liberdade, igualdade e fraternidade do que um ranço de fundamentalismo. Tive, filmes e, com eles, anseios. Tive oportunidade de saber que rapadura é dura, mas é doce. De conhecer bode. De comer chapéu de couro. De ouvir aboio. De merendar cuscuz com galinha ao molho. Tive ópera, bossa, samba e fado na vitrola.

Eu sei bem o que tive. Fui descobrindo o que não tive e o que ainda dá, tento aprender, conhecer. E aceito e acolho o que nunca vai ser. Também tento desnaturalizar a minha própria vivência. Tento não mostrar surpresa ou horror com o que pra mim é simples e a alguém parece estranho, exótico ou apenas novo. Tento não questionar as vivências e aprendizados alheios. Tento não usar meu umbigo como centro (o que é bem difícil, já que é um umbigo lindo).



O que não cobra em dinheiro, cobra em moeda ainda mais rara. Como a tira de carne sem sangue. 

E quando eu estou me despedindo você me convence a ficar mais um pouquinho. 

Diga sim e via umas horinhas de felicidade.

Hoje teve piscina. Futebol. Sopinha. E uma conversa quase abraço. 

E foi o dia dos namorados. Data comercial, não daquelas desviadas pelo vil capitalismo, mas daquelas criadas por e para ele. Abominável. E eventualmente deliciosa. Não acho que seja preciso uma data, uma hora, um planejamento para namorar ou enamorar-se. Mas também não rejeito desde que não se limite a. Nem sou de velas, mas lembro o dia que elas aqueceram meu peito cheio de saudades. Uma saudade que era sempre, mas que, ignorando o desprezível que há nas datas comemorativas, espalhou seu latejar e cada gesto, cada vela acesa, foi um contraponto, um consolo, um alento. Mais do que o dia dos namorados celebro o tempo do amor, sem fôrma, sem forma, sem rumo ou modelo, sem relógio ou calendário...

3 comentários:

Renata Lins disse...

Hum-hum... sei não, parece que....

Luciana Nepomuceno disse...

dizem que pra bom entendedor meia palavra basta, mas eu sou péssima entendedora, ajuda aí

BethS disse...

estou sem amor há algum tempo.
e não digo que não sinto falta, sinto sim, muito.
mas não sei se é de um amor ou DO amor em si.
como disse uma amiga, comecei a aprender a ser mais gentil com o meu passo.
afinal, não há lugar algum para chegar além de mim.
porque eu sou a viajante e a viagem.

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