quinta-feira, 2 de junho de 2016

Tempo Bom, Tempo Ruim


Quando a gente tem oito anos, um mês passa devagarinho. E faz sentido, ele é 0,0104 pedacinho do que se viveu.  Um ano, então, virge maria, representa 1% de toda essa vida, quando se tem 8 anos. Quando já se viveu 40, um mês passa voando. Ele é apenas 0,002 pedacinho do viver. 0,2% da vida. E não é só no aspecto quantitativo que um mês, um ano, tem alto impacto no conjunto dos nossos oito anos e bem menos significado no acumulado quarentinha. A não ser quando a pessoa tem uma vida como a da minha amiga Renata, circunstancialmente intensa e tal, com oito aninhos as grandes coisas da vida foram a escola, a chegada eventual de algum irmão, piolho, quem sabe uma viagem se a família for mais abastada ou simplesmente gostar de pangolar. Tudo parece imenso quando se tem oito anos. Inclusive os intervalos de tempo. Com quarenta, mesmo quem ficou quietinho no seu canto, já viu muito mais coisa. Precisou ver. Com quarenta a gente tem um certo ar blasé que a vida incrustou. Mesmo em quem ainda se deslumbra com o mesmo. Tudo parece menor. Inclusive os intervalos de tempo. Acho eu.

Por outro lado, tem a organização social da vida, né. Que, muitas vezes, atropela até o tempo. Os oito anos meus não são, não foram, os oito anos dos meus primos que moravam no sertão e laboravam com os pais. Meu tempo livre era de um tipo e quantidade. Os deles, outros. Diferentes, ainda, e muito, dos oito anos de quem já punha dinheiro – direto – em casa. Mas é como se o cachorro alcançasse o rabo, porque são oito anos vividos mais semelhantemente ao que se espera dos quarenta que o ~imaginado~ para os oito. Fico aqui matutando que quem viveu nesse ritmo aí não costuma ter a mesma sensação de que o tempo anda passando muito mais rápido que ~antigamente~.

Imagino como isso tudo é óbvio pras outras pessoas. Me sinto meio lenta, porque demorei a sacar e passei um tempo muito assustada com a velocidade que a vida ia emprestando aos dias. Até entender que não era A Vida, maiúscula e absoluta. Era a ‘minha’ vida.




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Ainda sobre o tempo. Cada vez mais a impressão de contramão. Eu tenho 41 anos. E tenho curtido, mesmo muito, envelhecer. Curtição que - sabia como informação, mas tenho comprovado em depoimentos de pessoas queridas – não é uma sensação comum, especialmente entre as mulheres. Pelo menos não entre as que eu tenho ouvido/lido sobre isso. Há várias ressalvas, parece-me, relativas à memória, fôlego, fragilidade física e tal, mas o que emerge como mais recorrente é a impressão de que esteticamente se perde alguma coisa que era importante.

A verdade é que a vida muda a gente enquanto a gente vai se mudando no que vive. E o corpo entra nesse jogo aí. Vem ruga. Vem metabolismo mais lento e muita gente engorda. Vem mancha na pele. Vem lei da gravidade. Linhas desenham-se nas pernas, braços, barriga, seios, bunda. Riscos e histórias no rosto. São mudanças. Que, um dia, espero, não serão valoradas como boas ou ruim em si mesmas.

Provavelmente parte do desconforto que não sinto decorre de eu não ligar pra parte estética. E não é de hoje, não lembro de um tempo em que não fui desligada. Sempre me considerei desejável, mas tenho me achado cada vez mais, sem nenhuma relação com uma "melhoria" aparente, mas pela maior percepção do meu corpo. E se não tinha muito compromisso com uma aparência composta e agradável, agora tenho ainda menos medo do ridículo. Tem sido bem vindos chapéus e vestidos de bolinhas.

Não é que eu sinta que ser quarentona é, em si, melhor que ser trintona, jovem, adolescente, criança, etc. Não naturalizo o desenvolvimento. Também não sinto que eu mesma estou melhor do que aos quinze ou vinte ou trinta. Não é uma questão de evolução.

Eu já disse por aqui, antes, eu gosto é da história. Do processo. E de mim nessa trajetória. Eu gosto de ir sendo. De ir me fazendo. Incompleta. Aberta. Talvez pela curiosidade sobre quem vem vindo em mim. Um certo prazer de ir (me) conhecendo. 





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E eu lembrei dessa música. Que, eu sei, eu sei, refere-se a um alguém que não é o alguém que a gente é. Mas eu, vez em quando, cantei e canto pra mim mesma. Tenho cá a impressão de que a gente não devia esquecer isso. A vida acaba um pouco todo dia. Todo dia a mais é um dia a menos. Se a gente pode descobrir, nisso e neles, alguma beleza, melhor fazê-lo (se, eu disse se, bem sei que há vidas e tempos que não o permitem, ou não com facilidade). Não esperar quem a gente vai ser. Nem quem a gente foi. Principalmente não esperar quem a gente podia ter sido. Pra não ficar sozinha da gente mesmo. 


4 comentários:

Renata Lins disse...

Eu sinto tão parecido. Primeiro, sobre a questão do envelhecer. Eu sempre admirei, amei, achei bonito gente dita "velha". Sempre, desde sempre. Isso ajuda. Gosto de rugas, gosto da história desenhada na pele. Gosto também de ter conseguido domar um pouco a intensidade (para de rir, eu disse "um pouco").
Tive a sorte de conviver com gente que sempre mordeu a vida às dentadas, em todas as idades. Com olhar pra diante. Isso ajuda também.
Hoje? Quero emagrecer. Tô insatisfeita com isso. Mas aprendi o meu corpo ao longo da vida, aprendi o desejo também e sei que ele não depende das formas: desejo é toque, é cheiro, é um brilho que a gente vê e sente. Sei, tem todas as revistas, todas as reportagens, todas as imagens dizendo que não. E mesmo assim. Tô melhor hoje do que em muitos outros tempos. O que não torna nada fácil, mas quando foi?

Roberta de Felippe disse...

Essa coisa de idade já me incomodou bastante, hoje não ligo mais. Só quero envelhecer com saúde, a minha é frágil e meu único medo do futuro é em relação à ela. Texto gostoso de se ler o seu. :)

Rita disse...

Quando eu era pequena, gostava de sentir essa frase aí: ir sendo. Eu pensava tanto nisso. Gostei muito de ver a frase aqui.

:-)

Maria Angélica disse...

Eu tenho uma relação muito ruim com o envelhecimento. E não é físico, não é por causa da bunda maior, do peito caído e das celulites. É mesmo por tudo que poderia ter sido e não fui. E saber que tenho cada vez menos tempo e oportunidade pra ser. Sozinha de mim mesma, é como eu me sinto. Nem sempre. Mas com mais frequência do que eu desejaria.
Um post pra se pensar. Obrigada.

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