segunda-feira, 20 de junho de 2016

Sansa e outras mulheres que resistem

Aquele momento feliz em que todo mundo passa a amar a personagem que você gostava sozinha.

Eu lembro quando Sansa era detestada ou, pelo menos, desprezada por quase todo mundo que eu via que acompanhava GoT (menos pela Fernanda, que é tão sabida, olha que texto bom). Porque ela tinha medo. Porque ela não guerreava com espadas. Porque ela procurava seguir o destino que achava que estava traçado pra ela. Porque procurava se ajustar. Porque queria agradar. Porque ela não fugia dos estereótipos de gênero. E eu acredito que cada uma dessas críticas - e seu conjunto - são válidas. Estruturalmente. Mas também acredito em especificidades. Em diversidade. No que nos é possível ser. O que eu sempre gostei na Sansa foi justamente a capacidade de usar a fragilidade como força. E sobreviver. Sansa é uma sobrevivente tanto quanto Arya, apenas dispunha de recursos diferentes para fazê-lo. Eu não acho docilidade ridículo, nem em uma mulher nem em um homem. Eu não acho delicadeza desprezível, nem em uma mulher, nem em um homem. Eu não acho ingenuidade abjeta, nem em uma mulher, nem em um homem. Eu não acho que personagens devam ser modelos. Gosto que sejam complexos. Gosto que, em uma narrativa, sejam como prismas, em seu conjunto - dependendo de onde bate a luz, vemos belezas e possibilidades diferentes. Sansa já era, em potencial, o que ela foi ontem. Firme, determinada, consciente das limitações, arisca, estratégica. Vingativa, também. Múltipla. E interessante. Como uma mulher qualquer. Opa, como uma pessoa qualquer.


Sobre o Facebook: minha TL é meu espaço. Eu cuido para ser o mais seguro e confortável possível para mim e paras as pessoas com quem escolho dividir meu espaço. Então eu desamigo pessoas que escrevem coisas racistas. Mesmo que sejam mulheres. Eu desamigo pessoas que escrevem coisas classistas. Mesmo que sejam mulheres. Eu desamigo pessoas que escrevem coisas homofóbicas, mesmo que sejam mulheres. Porque eu não desamigaria pessoas que escrevem coisas transfóbicas e/ou putafóbicas só porque são mulheres? Não tenho sororidade, é fato. Não tenho estômago para discursos de ódio e aniquilamento. Pessoas radfem fazem discurso de ódio, não são bem vindas na minha TL pessoal, mesmo que sejam mulheres.

Eu tenho realmente dificuldade de lidar com o ódio e a vontade de aniquilação. Podem disfarçar como quiser, podem chamar de teoria, podem falar em reforçar estereótipos de gênero, podem fingir que é “para o seu próprio bem”. O que há na linha de frente de certos discursos feministas é a negação da existência do outro. Combater a prostituição e dizer que não tem nada contra as prostitutas é a mesma lógica religiosa de combater o pecado e não o pecador. E o que se faz com as pessoas trans, perseguir, zombar, buscar humilhar, demandar que elas não sejam reconhecidas no que são? Aniquilação. Teorias que querem determinar o que pessoas adultas podem ou não fazer com seu tempo, com seu corpo, não merecem meu respeio e interlocução.

Sim, eu sonho com um mundo diferente. Melhor. Mas este mundo em que vivemos tem pessoas vivendo agora. Nele. Não no que eu acho que ele deve ser, mas no que ele é. E é preciso, acho eu, lutar para que estas pessoas, vivas, de agora, tenham uma vida melhor neste mundo e que essa transformação seja um passo em direção a outro cotidiano. Não acredito em quem, para preparar a terra pro plantio, passa o trator em gente.

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Feminismo de quem não acredita que mulheres possam pensar de forma autônoma. Pior, que acredita que apenas algumas iluminadas o fazem - pensam - e por isso podem determinar o que as outras pessoas deveriam fazer. Sei lá, sei não, mas nem no meu colégio de freiras, na década de 80.

5 comentários:

Verônica disse...

A Sansa da série é infinitamente melhor do que a do livro. A construção dela foi bem coerente e absorveu o papel da Cat Stark. Acho que ela foi fundamental para o dinamismo dessa temporada e para alçar o Ramsay à vilão imediato. As meninas Stark têm se mostrado infinitamente mais espertas e melhores que os homens.

Monix disse...

Tiro meu chapéu para Sansa - e continuo, como sempre, team Arya :)

Monix disse...

Tiro meu chapéu para Sansa - e continuo, como sempre, team Arya :)

Rita disse...

Como sou folgada e como só li agora, vou pegar esse post como presente de aniversário.

Obrigada, querida, adorei!!

:-)

Te amo.

Ariani Martins disse...

O que me irritava, e muito, na Sansa era ela não ver o óbvio. Mas é só um personagem, foi escrito pra não ver, então não via. Mas era sem sal pra mim.
Adorei o sorrisinho dela no fim do episódio passado!

Mas GoT é isso, hoje a gente odeia, amanhã ama, depois quer ver morto, depois quer que volte e a gente descobre que queria coisas que nem sabia que queria!

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