sábado, 11 de junho de 2016

Ponto Cego

“o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”

Sabe aquele coisa que a gente aprende, esquece, aí reencontra a informação em algum lugar, volta tudo e depois fica ali, latente até que um dia vira post no blog? Pois é. Ponto cego. Eu aprendi na escola, nas aulas de física (não me perguntem porquê, mal consegui recordar quando ouvi falar disso). E, claro, esqueci, como várias outras coisas (#verissimofeeelings). Até que reencontrei, anos depois que já são, também, anos atrás, em um episódio de Grey’s Anatomy. E ficou esperando, me cutucando, pedindo pra virar conversa fiada. Pois bem.

Ponto cego é um ponto da retina que não contém receptores de luz. De maneira generalista usamos pra falar daquele ponto que não enxergamos, mesmo quando estamos vendo tudo de bouas. Uma parte do mundo para o qual somos cegos.


O ponto cego não é conscientemente percebido, claro. Não sabemos o que não podemos ver. Como metáfora, geralmente encontramos a expressão relacionada a algo essencial que passou batido e de que não nos demos conta. Vacilamos, alheios a sua importância. Ou ainda, em uma outra vertente interpretativa, ponto cego sintetiza o que nos negamos conhecer, o que evitamos, o que preterimos ante o que convenientemente escolhemos ver, o oposto do que fixamos o olhar porque é o que mais nos apetece, o que melhor se encaixa nos nossos planos e experiências. A idéia de um ponto cego parece relacionada a uma falha, à compreensão de que ele nos priva de coisas que não deveriam ser desconhecidas ou ignoradas. Há sempre, latente, um alerta, uma advertência contra o não saber.


Não sabemos o que não podemos ver, eu disse, mas muitas vezes sabemos que esse algo existe. E isso me incomodou, por um tempo. Eu tentei dar conta do que havia pra ser visto. Insisti. Olhando ao redor, lendo, conversando, invejando o lidar com informações. Olhando pra dentro, escarafunchando desejos, medos, segredos, fomes, sonhos. O que havia para saber não devia ser sabido? Não era uma questão de necessidade saber o ponto cego e eliminá-lo? Pois tentava e com afinco. Era preciso ver e eu partia atrás, míope de alma que me fiz.

Hoje, respiro lentamente e sorrio. Já sei que o ponto cego é uma forma de cuidado com nós mesmos. Tenho vontade de pôr aquela luciana no colo, afagar-lhe o cabelo e dizer: repouse. Sossegue. É preciso saber que temos um ponto cego. Que, eventualmente, ele vai fazer a gente deixar passar algo. Que, de vez em quando, pode nos fazer atropelar alguém que estava ali, onde não pudemos ver. Que pode nos fazer escorregar, tropeçar, bater a cara na coluna. Mas não é necessário ver tudo, saber tudo, evitar tudo. Descanse, moça. O ponto cego, muitas vezes, está nos protegendo do excesso. De conhecimento, de informação, de luz.

2 comentários:

Isa disse...

"Há sempre, latente, um alerta, uma advertência contra o não saber."

Vou ficar o resto do dia a pensar nisto... :)

Luciana Nepomuceno disse...

Isa, se tiver uma luz, partilha aqui ;)

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