quarta-feira, 1 de junho de 2016

Olha Pro Céu Meu Amor: é Junho!

(eu reescrevo? sim, eu reescrevo, afinal todo ano tem junho)


Junho é esse mês amarelinho: de fogueira e canjica, a gema do ovo, mugunzá, pamonha, o sorriso que é sol, o lençol no varal. Os remendos na roupa da quadrilha. Junho é esse mês com cara de festa: o arraial na calçada, as ruas em bandeirinhas e balões, o riso, os vestidos, a dança. Junho é esse mês com cara de saudade: o meu corpo e outro, a sanfona, o salão. Eu sempre lembro junho em felicidades.

Junho é em cheiros: de fumaça, de sardinha, de milho assando, vatapá e suor no salão. Junho é o mês dos santos que pedem festa, falam rua, cuja graça se alcança com simpatia. Um minuto pra pensar na lindeza disso. Que beleza de nome: simpatia. É lúdico e escorre na língua, dá vontade de sorrir, a faca na bananeira, a bacia virgem com água e a vela pingando, os nomes enroladinhos dos moços junto a pétalas de flores. O sonho.

Junho é mês de festa, disse eu, Antônio, João, Pedro e Liana. Que vem a ser a irmã. Mês dos pés já mais leves de quadrilhas lembradas e esperadas. Promessas de risos a mais. E vestidos. Bandeirinhas e balões. Há mais música, sanfonas choradeiras a me convidar o corpo. Há anseios por salas de reboco. Há inesperadas coreografias ou ensaiados passos. Há chuva, mas de bala.


Junho é mês com sobrenome: Gonzaga você pode chamar. Ele atende. Com uma risada marota e um resfolegar do instrumento. É junho e as meninas só pensam em namorar. E usam saia que termina muito cedo porque facilita. É junho e eu não preciso chorar porque a sanfoninha chora chora a minha dor. É junho de terreiro iluminado, de fogueiras saltadas, tempo em que eu me amoreno em cheiro de fulô. Junho de cabo a rabo tempo de sentir o sertão latejando no pulso.

Junho é o mês de engabelar o cansaço, aguenta um pouco, amanhã é o descanso. É junho e há uma certa modorra, mas é morosidade de fim de tarde e rede na varanda chupando rolos de cana. É doce. O corpo se lembra de se saber carne. Gosto dos momentos finais do semestre, o assombro de alguns, a tranquila certeza de uns poucos, a agitação de muitos. Gosto de olhar acertos e equívocos e já saborear a expectativa do novo, do outro, do próximo.

Junho é, também e agora, o mês da alteridade. Do peito aberto. De aceitar em  saudades. Uma outra festa, um outro ritmo, um outro lugar e tempo. Junho é recordar: a marcha, a sardinha, os santos ditos populares, o fado no eléctrico. Junho em ladeiras. Junho em diferentes lembranças, diferentes sorrisos. E, se o peito apertar, faço meu próprio cuscuz, amarelinho. Contrapontos.


Um último réquiem para maio: começaste muito pior do que terminaste. Em algum momento me trouxeram de volta o riso. Trouxeram-me a espera e a inquietação. Não faz mal, melhor o tanto querer que me agita que a apatia e desesperança. 

É junho, não mais maio, não ainda julho. É junho. Junho. Junho em amarelos. Em sol. Calor de praia. Convite. É junho para os sentidos. Para ver o que há pra se desejar. Cobiça. É junho pra ouvir. Vezes e vezes a voz se fazendo música. Junho para tocar, a pele se fazendo seda. Para provar. Deixar-se ser sabor. Junho para oferecer. E torcer. Junho para despir a tristeza de maio, a angústia de maio, o vazio de maio. Nua de maios, estou pronta. É junho.

3 comentários:

Renata Lins disse...

Antonio, Pedro, João, Liana e Felipe. Que vem a ser meu filho. :)
Junho: um motivo pra se alegrar pra vida inteira.
São João: lembranças antigas de enormes cirandas. Fogueira. Friozinho.
Comidas de milho - adoro todas.
Lindo texto.

Luciana Nepomuceno disse...

Ai, junho em família ;-)

Roberta de Felippe disse...

Junho é o mês mais gostosinho do ano, né? Cheguei no seu blog através da Central do Textão e quero acompanhá-lo pois gostei bastante. Um beijo.

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