sexta-feira, 3 de junho de 2016

Não Ligo de "Dar Trabalho"

e se houver tristeza, que seja bonita



Uma coisa com a qual eu tenho zero preocupação: se eu vou dar trabalho. Se eu vou dar trabalho quando ficar doente, quando ficar velha e gagá, quando eu definhar na cama ou acabar de surpresa, quando eu morrer deixando uma biblioteca enorme e inútil, quando eu morrer e tiver ainda a rede rosa dada pela minha avó armada na varanda. Não me preocupo. Tenho uma convicção arraigada e serena de que as pessoas do meu entorno cuidarão. De mim, dos meus livros, dos abacaxis por descascar. De minha parte, pago um plano funerário e tenho uma cota no jazigo da família. Não me importo com o trabalho que vou dar mas, podendo evitar, não deixarei contas.

Pra mim, convivência também é cuidado e intimidade. Eu lembro quando meu orientador morreu. Ele vivia em uma cidade que adotou, longe da origem. Sem parentes próximos (na verdade, pode-se dizer que sem parentes, próximos ou distantes) a não ser uma tia avó no gelado sul, com os amigos em um país também gelado, também distante mas ao norte, e, pelo pouco tempo de chegada na nova casa, apenas novos conhecidos. E eu. E a outra orientanda. Cuidado e intimidade, eu disse. Morreu. Sem preparativo. Sem plano. Sem caixão ou destino. Hoje, está no jazigo da minha família. Morreu. Choramos. Abraçamos uma à outra. Negamos e aceitamos e lamentamos e voltamos a chorar. E depois fomos lá onde ele já não estava, dobramos suas roupas, esvaziamos os armários e geladeira, trocamos lembranças, ficamos embaraçadas com um ou outro objeto íntimo encontrado. E cuidamos de toda a biblioteca. Fizemos um carimbo. Separamos os livros que interessavam a nós, como sua tia avó indicou que devíamos fazer. Separamos os livros que interessariam à biblioteca da Universidade pública onde ele trabalhava. Fizemos, com cuidado e intimidade, a triagem do que deveria ser doado e a quem. E cada ida ao apartamento dele era dolorosamente boa. Como se ao apagar os indícios materiais dele naquele apartamento que esvaziávamos, os transportasse para dentro de mim. Tudo que fizemos, tudo que fiz ao tratar das coisas que eram dele, fechar conta em banco, cuidar dos trâmites na Universidade, vender objetos, despachar caixa de objetos pessoais para o sul, doar, limpar, tudo, tudo que fiz, que fizemos, nada me pareceu “trabalho” na acepção negativa que vejo relacionada às falas quando esse assunto surge (e, tenho certeza, nem pra ela, com quem cada atividade dessa foi dividida). O que fizemos foi por cuidado. Foi carinho.



Quando meu filho fica doente eu dou remédio, coloco a cabeça dele no meu colo, limpo vômito, troco roupa, cozinho canja. Durmo de olho meio aberto pra ver se ele está conseguindo repousar. Faço isso porque o amo. Ele é importante pra mim. Você, a quem amo, saiba que estou disponível para isso e mais. Ler em voz alta. Trançar cabelo. Segurar a mão. E sei, com a tranquilidade de quem cresceu no abraço amoroso, que há braços para as tarefas que minha (falta de) saúde demandar. 

Eu vou morrer. Talvez antes fique doente, talvez morra rapidinho. Talvez seja uma doença que se arraste, que me deixe dependente, talvez seja daquelas avassaladoras. Vou morrer. Talvez precisem cuidar de mim, trocar minha fralda, limpar a baba, alimentar e banhar. Talvez não. Vou morrer. Ficarão livros na estante. Álbuns de fotografias nas prateleiras. Roupas no armário. Comida na geladeira. Grãos em potes. Temperos. Dvds espalhados. Ímãs de geladeira. Algumas dessas coisas, em pequena quantidade. Outras, em grande número e tamanho inadequado. Nem por um momento me inibe ou constrange saber que eu vou morrer e coisas ficarão aqui, por ser resolvidas. Não mais por mim. 

Fiz um testamento. Eu tenho feito desde os, sei lá, catorze, quinze anos. Os primeiros ainda incluíam a doação do violão (que já não tenho) e uma ou outra indicação do destino de um livro. Os últimos testamentos até isso perderam. A preocupação não é pra quem vou deixar qualquer coisa. Não é sobre o destino das coisas. O meu testamento compreende palavras de amor e uma lista de pessoas que devem ser avisadas. E é isso. 


8 comentários:

Renata disse...

A história do que fez pelo seu orientador me emocionou tanto... eu penso muito no assunto. Mas acho que nunca tinha pensado pela ótica do afeto. Do fazer porque se ama. Sempre aquela idéia da obrigação, do "é minha responsabilidade". Tenho minhas questões íntimas pra explicar porque é assim. Mas gostei muito de pensar de outra forma. Ver esse momento como forma de carinho, mais do que de cumprimento de tarefas determinadas pelo sangue. :*

Ana Paula Medeiros disse...

Tem como dar like não só no texto mas também no comentário da Renata?

Cláudio Luiz disse...

coube a mim arrumar/separar coisas mais de uma vez. desde de arrumar para tentar diminuir a dor, até de pessoa próxima, mas sem uma grande relação.
sempre penso neste constrangimento de descobrir algumas anotações, objetos, mas logo rebato... não vou mais estar aqui.
mas, preferiria simplesmente desaparecer, depois de ter queimado tudo.

Nalu A. disse...

Que lindo isso, que lindo! Pra mim não é fácil pensar assim, eu ainda me preocupo em ar trabalho, não consigo me desvincular disso. Não me importo em ter trabalho com os meus, mas pensar em dar trabalho ainda me deixa muito aflita. Mas é tão bonito ver que seu viés é diferente, e tão humano. Me fez pensar. Abraços

Renata Lins disse...

Aprendi assim também, com minha mãe que é assim. Eu algum dia achava que todo mundo era assim. Faz tempo.

Rita disse...

Impossível ler sem me lembrar do que foi arrumar as coisas de minha mãe.

Acho que não sei comentar. Mas amei cada linha de seu post.

bj

Denise Somera disse...

que lindo, muito tocante. nunca passei por nada disso. me fez refletir. beijos!

Bel disse...

Nem sei como começar a comentar isso aqui. Acho que vai sair um textão que vai virar post no meu blog.
*respira*
Estou cuidando de meus pais idosos (87 e 92) e não está sendo fácil. Não é a coisa do "serviço braçal", que pra esse, tem profissional contratada. É para o "tudo o mais". É pra as decisões a serem tomadas (sou filha única). É para a administração da casa (deles e da minha). É para a administração financeira do dinheiro deles (que é bem mais que o meu). É para o fato de que fiquei desempregada bem quando eles passaram 18 dias no hospital (ela 6, ele 12, em seguida um do outro). É para a dependência emocional que eles têm de mim. É para o meu sentimento de aprisionamento, já que desde que eles estão como estão eu não tenho podido viajar, nem cuidar direito da minha vida. Enfim, nada fácil. E, como você, hoje eu tô nem aí pra como vai ser comigo.
Mentira. Eu peço a Deus todo dia que não me deixe envelhecer. Quero morrer ainda dona de mim. Mas se não for assim, meus filhos que se virem.

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