terça-feira, 28 de junho de 2016

Hoje não

Eu não sei escrever em computadores que não são o meu. Eu sei, esquisita. Se conseguisse, teria falado, por exemplo, da final da Copa América e da minha simpatia por quem carrega um país nas costas. Pior, quem corre com este país agarrado aos seus pés. Mas não hoje. Hoje o teclado sem ponto de interrogação me inibe.

Hoje direi apenas do céu azul, do vento nas costas, do calendário em regressiva expectativa. Das indecisões. Nas grandes coisas geralmente sou quase um fenômeno da natureza. Apenas vou. Sigo. Faço. Todos os verbos no presente. Mas nas coisinhas miúdas, quanta hesitação. Eu vacilo, titubeio, deixo o pensamento vaguear entre opções, todas tão aparentemente encantadoras e promissoras. Escolher um prato principal. Definir o nome de uma coluna. Selecionar a cor da parede. Miudezas. Abismos em que me perco.

Ontem passei um tempão vendo fotos. Antigas, eu ia qualificar, mas nem. De dois, dez, vinte, quarenta anos. Em algumas eu vejo alguém que sei quem é. Sei vontades, risos, afetos. Em outras eu reconheço meu rosto, meu corpo, mas pouco saberia dizer daquela menina, daquela mulher. O que mais gostei foi encontrar, nestas fotos todas, a impressão de conforto. Eu\ela toda bem alojada no corpo que era. 

Vi uma foto nossa. Daquelas que chegam fotografando no improviso. Meu sorriso fácil. Seu sorriso raro. Lutti, você me chamava. Lutti, agora eu sei porque você é tão bem-humorada e atilada nas respostas, você começa o treino no café da manhã. Foi isso e não foi. Foi do jeito sagaz que acompanhava tudo que você dizia. Acompanha. Diz. Só não há mais palavras suas pra mim. Eu gosto muito de quem eu me fiz, mas quando lembro que você não gosta, o gosto trava na boca. 

Olho passagens aéreas. Simulo trechos, pacotes, cruzeiros. Coleciono links. A cigana canta no peito. Pede. Suspira. Definhamos de saudades da estrada.

Ainda não é meio dia e eu já me embananei em  várias bifurcações. Ainda não limpei a pia, não arrumei a cama, não desfiz a mochila, não preparei slides, não separei textos. Ainda não. Otimistamente escrevo: ainda.


Estava ouvindo Maria Callas e lembrando do fim da infância, quando lia/ouvia Carmen e pensava que era inevitável que eu morresse jovem, embora me apetecesse tanto envelhecer. Viver (n)o lucro, que beleza.



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