quarta-feira, 22 de junho de 2016

Eu Acredito em Pequenas Coisas

Eu estava com vontade de muitas coisas. De provar o caldo verde da Tina. De fazer piadinha interna. De limpar a geladeira antes do fim de semana. De saber meu destino no mês de julho. De rala e rOPA. Estava com vontade de ligar o forno e sentir o cheiro de alho e azeite animando a casa. Como digo sempre, sou muito ruim de memória. Tenho poucas lembranças de coisas que aconteceram. Mas (e que mas tão bom pra mim), certos cheiros, sabores, lugares, sons me fazem recordar não as coisas que aconteceram, mas a sensação boa que tive. Então, alho e azeite. E batatas no forno. Batata no forno me faz recordar cumplicidade, noites preguiçosas, pele, abraço. É bobo, particular e aleatório, mas é isso, hoje precisava de muito e pensei que alho, azeite e batata podiam me ajudar.

Foi mais ou menos assim: uma batata doce, grande. Batata doce, pra mim, tem gosto de minha raiz (desculpe, rs). Uma batata baroa, grande. Batata baroa tem gosto de novidade e aprendizado. Quatro batatas inglesas, médias, sabor saudade. Todas elas descascadas, cortadas em pedaços pequenos, escaldadas e escorridas. Juntas, em uma travessa grande, com duas cebolas grandes cortadas ao meio, uma cabeça de alho tirada a pontinha, azeite, sal marinho, ervas variadas (salsa, orégano, manjericão) e meia abobrinha descascada e cortadas em pedaços grandes (porque ela assa bem mais rápido) foram para o forno por uma porção de tempo. Quanto tempo? Até o cheiro me deixar confortada e confortável. Enquanto esperava lavei louça e deixei o pensamento ciganear.

Depois de um certo tempo tirei uma das cebolas, coloquei em uma panela com um pedaço de gengibre, muita couve sem talo, folhinhas de manjericão (eu disse que queria ir limpando a geladeira), pimenta moída, mais ervas secas, linguiça em rodelas e água.  Deixei ferver bem e a água ficar saborosa e esverdeada. Lembrei que tenho feito muitas piadas relativas à inveja ultimamente. Não tenho vergonha de ter vontade de coisas que outras pessoas vivem ou sentem. Não anseio que percam o que têm. Não quero nem mesmo o mesmo. Mas tenho vontades de muitas vidas. Minhas e alheias. E das coisas que há para sentir por aí. A tampa da panela balançando com a fervura da água me lembrou de tocar o barco. 

Retirei as linguiças. Misturei, com o mixer, a água temperada, as batatas assadas e tudo mais que estava na assadeira.  Confesso que escrevi primeiro varinha mágica. E apaguei. Corrigi. É preciso corrigir o rumo, algumas vezes. Lembrar que o caminho nos leva onde queremos ir tanto quanto os passos que damos. Mixer, então. Ficou cremosa, bm cremosa. Provei o sal, juntei as rodelinhas de linguiça. 

Eu precisava de muito e muito me foi dado. O docinho da batata doce ornando com um certo ardor do gengibre. A textura da batata baroa fazendo o creme deslizar na língua. A batata inglesa se impregnando de alho e encorpando sabor. A caramelização da cebola se fazendo sentir a cada colherada morna. Uma certa ternura pelo que a vida pode ser, mesmo não sendo toda. Ou justamente por isso.


Eu projeto lucianas. Quem eu quero ser, vou sendo, até acontecer ou mudar o vento. Olho pra frente e vejo bolos, biscoitos, pão. Principalmente, pães. Casca dura. Com centeio. Com grãos. Escuros. Fazendo lembrar e, concomitantemente, fazendo esquecer. Ou, pelo menos, sobreviver.

Pequenas coisas. Bonitinhas. Inúteis. Fundamentais. Um brinco sem par no fundo da gaveta. O passarinho beliscando o nada no jardim. Aquela fita K7 gravada para um dia dos namorados. Uma bailarina bibelô. Telegrama com declaração de bem querer. Uma borboleta na varanda. A flor de cactus. O raio de sol brincando de ser cor na água da piscina. Um vídeo da Comaneci. Um verso escrito em guardanapo. Bolinha de árvore de natal. Esperança e saudades.

Então, a gente vai. O caminho é de curva suave, vez ou outra viro a cabeça e ainda te vejo. Daí suspeito o movimento da tua cabeça, disfarço e me movo mais rápido. Não lembrava que os pés pesavam, que andar era tão difícil, joguei fora promessas e amarras, mas ainda arrasto esperanças. São outros os horizontes nossos, cada vez mais outros. O meu, em azul. E a estrada, sempre ela, tijolos amarelos.

4 comentários:

Esteffane Pereira disse...

"Eu projeto lucianas". <3
Daquelas frases e fases que estão dentro e correndo por fora.

Linda! Linda!

Rita disse...

Sai coisa dessa cozinha, hein? Benza.

Unknown disse...

que legal o texto todo. o 'seu' caldo verde pareceu delicioso! ;-)

BethS disse...

tão bom morar sozinha...
fico lendo o seu texto e sentindo aquela 'invejinha' que você fala la no começo... mas sou feliz porque é luciana.
beijos querida!

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