sábado, 18 de junho de 2016

Antes, Só.

Hoje acordei cedo, arrumei algumas coisas na casa, coloquei o biquini, peguei a toalha e o ipad, protegi o rosto e fui piscinar. Sozinha. Uma hora e meia entre chuveirão, boiar, bater perna displicientemente, chuveirão, ler, boiar mais um pouco, ler, boiar, chuveirão. Eu gosto de estar só. De fazer coisas sozinha como ir ao cinema, ver futebol em um bar, ler na praça, tomar banho de piscina. Gosto de não pensar em nada, gosto de pensar bobagem ou fazer pequenos projetos impossíveis. Gosto do pensamento livre, da facilidade de comunicação, dos insights toscos. Por exemplo, hoje estava levemente acima da água, mãos em baixo da cabeça, sol no cucuruto, num leve balanço, e pensei: tem personagem que eu gosto de desgostar e tem personagem de quem simplesmente não gosto mesmo. Como a Kepner de Grey’s Anatomy ou a Lila da Série Napolitana. São desgostos que independem do olhar, independem de quem está contando a história, independem de interpretação, viés. Eu apenas não gosto das coisas que elas fazem. É diferente dos personagens de quem gosto de desgostar, como a Madame de Tourvel. Meu sentimeno negativo em relação a ela me acrescenta. Faz pensar. Me inquieta quanto a mim, quanto ao meu sentir. Me interroga sobre meus motivos. Quando gosto de desgostar o como é muito importante, não apenas o “o quê”.

Mas nem era disso que eu falava. Era de estar só. Ser só. E como me sinto confortável aí, nesse lugar. Ainda assim, não foi a melhor parte do dia. Porque eu tenho uma irmã. Irmã e vizinha. Que topa coisas como: vamos fazer um bolo? Eu cresci vendo filmes americanos. Apesar da crítica à cultura e tudo mais, nunca me livrei do fascínio daquela troca de comida na vizinhança. Que sempre pareceu fazer eco com a gentileza e generosidade do interior do nordeste, onde pedaços de animais, gordura, feijão e milho são oferecidos por quem quase não pode a quem não pode mesmo. Pois, curto a imagem de bater na porta de alguém e dizer: trouxe um bolo. Imagine, então, chegar com bananas, ovos e forminhas e dizer: vim fazer um bolo*.




Fizemos. Eu, que nunca tive mão nem vontade para isso, me diverti largamente. Acendemos o forno. Bati claras em neve. Ela cuidou das bananas. Preparei a massa. Ela untou as forminhas. Eu disse bobagens. Ela corrigiu o uso da batedeira, gerenciou a cachorra, mandou fotinhas no grupo da família. Conversamos enquanto os bolinhos cresciam e douravam, serelepes. Provamos. Prevemos futuros: da próxima vez contrariaremos a receita em um nada, tiramos açúcar, diminuímos a farinha de trigo, caprichamos mais no vitamilho.




A verdade é que ficaram lindos, as bananinhas carameladas no fundo, meio arroxeadas, como olhinhos zombeteiros, a casquinha de cima crocante, fofinho e macio sem esfarelar. Mas a verdade mais verdadeira é que o melhor sabor é o da cumplicidade. Procurar no google o melhor jeito de desenformar. Achar sensacional colocar um milho e uma banana pra posar na foto. 



Eu gosto de estar só. Eu aproveito. Eu me curto. E gosto, igualmente, de saber que isso não impede de amar, de estar junto, quando der, quando quiser.Eu não tenho medo da solidão porque a contraprova é uma manhã fazendo bolo onde o que menos importa é encher o bucho.

* Bolo que existe graças à Maria Angélica e à Central do Textão .

11 comentários:

Isa disse...

Entendo-te bem, preciso de estar só para sobreviver. De resto, identifico-me muito com o tergiversar mental que noto na tua prosa. Adoro :)

Marcela Zaidan disse...

Adorei!!!

Também adoro estar só!

BethS disse...

ultimamente ando muito só, mas até que curto. gosto de mim, do meu jeito, das coisas delirantes que me passam na cabeça... rio muito com as minhas besteiras...
mas sinto uma invejinha boa de uma cumplicidade com minhas irmãs, como você tem com a sua. por causa da morte de minha mãe, quando todas ainda eramos pequenas, fomos praticamente separadas, cada uma foi criada até uma certa idade na casa de avós paternos e maternos, de tios e tias. aí a gente se gosta mas a convivência é um pouco estranha... como se aquela irmã não estava presente em alguns momentos importantes e agora não tem mais volta...

ah, mas nem posso reclamar. moramos longe umas das outras, cada um com a sua vida. temos imensas diferenças mas nos amamos, nos falamos pela internet, pelo telefone... as vezes ao vivo...amo meus sobrinhos tambem.
isso ai... e a vida segue...

se eu fosse sua vizinha, a gente ia trocar muito...
rsrs

Renata Lins disse...

Eu gosto muito de estar só. De ir ao cinema então, vixe. Tenho até preguiça de ir com gente.
De sentar em algum lugar e tomar algo, de andar.... isso que você disse. Deixar a cabeça solta e os pensamentos livres.
De lavar louça.
É, eu sei, meio estranho nessa lista.
Mas lavar louça é um lugar de silêncio, em que as mãos trabalham e a cabeça fica livre.
Tantas ideias me surgem lavando louça.
Adorei os bolinhos. Qual é a receita da Angélica?

Renata disse...

Tirando a parte de fazer o bolo, acho que eu poderia ter escrito esse post:)

Cláudio Luiz disse...

eu já sabia do bolo e já tinha visto a foto, mas ler o post e ver a foto assim njum domingo... eu quero bolo.
e nem me adianta querer me aventurar fazer, visto que nesta casa não nenhum - nenhum - dos ingredientes necessários.
você podia ser minha vizinha e chegar dizendo:"vim fazer um bolo". Cchegando com bananas, ovos e forminhas, of claro. eheheheheh

Luciana Nepomuceno disse...

Isa, eu fico toda contente com seu comentário. Admiro muito sua escrita :)

Beth, cada vivência é única e elas tem suas potencialidades, né? Mas confesso que sou muito feliz com o tipo de intimidade que tem na minha família. E passa muito por isso que você falou: nós estivemos perto e por perto quase todo tempo... (ah, eu ia adorar ser sua vizinha) beijinhos

Renata, eu esqueci, mas lavar a louça também entra. No caso a culpa é da Angélica não pela receita específica mas por me fazer acreditar que qualquer pessoa pode fazer bolo.

Renata, eu achava que não saberia fazer bolo, descobri que metade é a forma e a outra metade é coragem ;)

Luciana Nepomuceno disse...

Marcela, obrigada pela visita e pela gentileza. Beijinhos

Cláudio, o bolo nem é difícil, difícil mesmo é a companhia certa - ia curtir muito poder chegar sempre na sua casa :)

Lica disse...

Cláudio, deixe de assédio à minha vizinha... :)

Lica disse...

Cláudio, deixe de assédio à minha vizinha... :)

Courage Dear Heart disse...

Poxa, que texto leve. Muito bacana!
As vezes me sentia mal por gostar de ficar sozinha... e é acada vez mais frequente eu desafiar esses pensamentos...
Enfim, excelente leitura! Obrigada por compartilhar!

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