domingo, 29 de maio de 2016

você só tem que me dizer o que dói, onde e quanto


Identidade: vejo futebol domingo meio dia.

Eu sei que sou uma pessoa legal. Mas não veio com algum tipo de esforço ou mérito. Mas uma coisa eu conquistei: a falta de vergonha de dizer. Eu digo. Digo mesmo. Digo a raiva. A dor. Digo a inveja. Digo o afeto. O encanto. O amor. Digo eu te amo. Digo muito. Digo sem vergonha. Dizer é uma conquista minha.



Foi quase sem querer. O jogo de futebol às onze mudando todo o ritmo do domingo, a tarde preguiçosa se estendendo meio inútil às minha frente: um filme. Uma zapeada e encontrar Binoche. Eu vejo qualquer filme em que ela esteja. Selo de garantia. E ainda tinha o nome: Palavras e Imagens. E o mote: uma disputa entre uma professora de pintura (Dina) e um professor da língua (Marcus).

Nem é um filme novo. Tem essa vantagem em ser distraída como sou: de repente, uma aventura. Poderia ser apenas mais uma comédia romântica com momentos de melodrama. E quase é. Se. Se não tivesse a Binoche. E personagens fora do padrão. O mocinho, alcóolatra. A mocinha, artrite reumatóide. O drama: perder o emprego, os vínculos com o filho, a saúde. Uns momentos previsíveis. Ouros bonitos. E boas palavras. Bem usadas.

Um filme esquecível. Se não tivesse a Binoche. E se seu personagem não tivesse que reinventar o seu ofício, reinventando-se, a partir da mudança funcional do seu corpo. Eu pintava o mundo que podia ver. Agora vejo o mundo que posso pintar. Ou algo assim (saudades de ver os filmes em cassete e voltar aos diálogos pra transcrever direitinho).

O filme nos joga em perguntas: o que traduz melhor os sentimentos, o mundo, a vida, palavras ou imagens? Em quais delas podemos confiar? O que nos ampara e norteia? O que nos faz avançar? O que nos humaniza? E a dúvida que não está no filme, a não ser como resposta, mas que sustento como questão: há uma resposta única?

No próprio filme disputam imagens e palavras. Por um momento a gente se deixa convencer pela imagem: Binoche, um casaco vermelho, um lenço azul escuro. No momento seguinte, o diálogo mais tocante. Perto do fim do filme, o momento da disputa oficial, imagens X palavras e o moço, claro, usa as palavras para dizer que não importa se poema ou pintura, importa onde nos levam, nos elevam, etc. Mas eu, se fosse roteirista, teria terminado a fala dele assim: diante desses artistas, Shakespeare ou Dina, só nos resta a gratidão. E obrigado, claro, é uma palavra (é que eu não esqueço a marquesa: “traição não é sua palavra preferida? – não, crueldade. É mais imponente”).

Mas antes de me perder, quero dizer da imensa beleza das imagens-movimento de Juliete em sua casa-oficina-estúdio. Li por aí que as telas que aparecem no filme são mesmo dela. Quanto talento cabe em um corpo? Mas nem era essa a beleza. Do corpo. Mas a da limitação do corpo. A beleza dos exercícios. Dos pincéis enormes, para assim poderem ser manuseados. Da cadeira com rodinhas para facilitar o deslocamento. A beleza da vulnerabilidade conjugada com a força.



O filme corre pro inevitável romance entre os personagens centrais. É quando eles estão se preparando pro rala e rola que ela diz: “você tem que ter cuidado, com o meu corpo” e ele responde: “você só tem que me dizer o que dói, onde e quanto.”

É uma crença ingênua, a do personagem Marcus. Uma crença que partilho, quase sempre. A de que as palavras serão o suficiente. Basta isso: a coragem do enunciado. Abre-te sésamo e estaremos diante dos tesouros. É só me dizer o que dói, onde e quanto e não nos machucaremos. Faça um esforço, respire mais fundo e tenha coragem de dizer: não me machuque. E, ainda assim. Eu não vou te machucar, a gente promete e acredita para, no momento seguinte, cair em cima da tela recem pintada.

Pessoas fazem merda. Pessoas legais. Pessoas gentis. Pessoas boas. Fazemos merda. Mesmo que tenham nos dito, com esforço: o que doía, onde e quanto. Dizer é indispensável, mas não é garantia. A gente esquece. Eu esqueço. Eu esqueci. Que as palavras não bastam. Não é o suficiente saber o que dói e quanto dói. As palavras não serão o suficiente porque nada, nunca, será o bastante. Somos humanos e há, no que não está dito, a vulnerabilidade que nos estrutura.

Às vezes nos dizem o que dói. Onde. Quanto. E mesmo assim. 

O que resta saber: "desculpe" também é uma palavra.

Eventualmente, inútil. Mas nunca dispensável.

5 comentários:

Renata Lins disse...

Fiquei com vontade de ver esse.... e lembrei de outro que vi. Não lembro o nome: mas era um em que ela acorda um dia sem a memória de um pedação da vida. Pra ela, ainda é jovem adulta, apaixonada pelo namorado, cheia de amigos. De verdade, ela já é uma mulher madura, com um casamento destruído e diretora de grande empresa. Um filme que eu não veria, caso fosse americano. Caso não tivesse ela. Também assim, cheio de doçuras inesperadas.
Ela faz muitos personagens quebrados, né? Desde aquela em que surgiu, lá atrás, passando pela de Damage, essa de que contei aqui, a do seu filme, e até a de Cópia Fiel...

Luciana Nepomuceno disse...

Gosto muito desse que você falou. Se não me engano chama A outra vida de uma mulher ou A vida de outra mulher, algo assim. Sei que tem outra e tem mulher (e me lembra a dupla vida de veronique, mas mais pelo nome).

Gosto demais de como ela faz essas personagens quebradas ou como faz quebradas personagens que nem seriam necessariamente, como a enfermeira ou aquela de chocolate. Ou a que recebe uns cassetes com imagens da casa dela. Enfim, como ela consegue mostrar a potência e a beleza do que é, também, incompleto e frágil.

Juliana disse...

Preciso aprender a dizer e aprender a aceitar que as pessoas fazem merda.

Rita disse...

Ai, Lu, que quero tanto. Thanks.

Luciana Nepomuceno disse...

Juliana e Rita, <3 <3

obrigadinha por sempre estarem aqui

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