segunda-feira, 23 de maio de 2016

Tipos

Existem dois tipos de pessoas: as que dividem as pessoas em dois tipos e as que não dividem. Eu tento ser das que não divide. Gente é um negócio complexo. Mas. De vez em quando, na minha cabeça, eu penso: não sou de naturezas, sou da galera das construções humanas. Eu acho bonito prédio, painel, porta, calçada, escultura, quadro, letra (é claro que água corre por fora, especialmente o mar). 

Entretanto mesmo eu, que não sou das naturezas, às vezes me assombro. Com o céu. Já tive a sorte de ver muito céu bonito. O nascer e o pôr-do-sol. Em praias aqui e ali. Na neve. Na serra. Em montanha, montanha de verdade. Do lado de cá do mar. Do lado de lá. No próprio mar. 

E mesmo assim eu posso dizer que o céu mais lindo que já vi – ok, um dos top five – eu vi, ontem, em Mossoró. Despretensiosamente. Foi assim: acabou a água. A de beber. Junto a coragem, troco de roupa, decido ir ao supermercado, assim aproveito e posso comprar abobrinha. Estava dirigindo, naquela vibe cuidado-com-todo-mundo-que-acha-melhor-dirigir-no-acostamento, quando eu vi o céu. Eu não conseguirei descrever a beleza das cores. Os tons de vermelho, de laranja, de lilás, de azul. Meu coração batucou. Eu sei, toda essa onda reflexiva crítica que a gente tem que apreciar o momento e não se preocupar em registrá-lo. Mas estava tão bonito. E eu estava sozinha. E eu não queria saber aquela beleza sozinha. Queria, um dia, poder dizer pra alguém que amo: lembra, aquele dia, indo comprar água, aquele pôr-do-sol? Ou, pelo menos, olha só como ontem estava lindo o céu aqui. Mas eu estava em cima de uma ponte. Depois tinha um monte de árvore no meio. Depois não dava pra parar porque era estreito. E o sol aqui se põe em um piscar de olho, quase. Quase nem pisquei até que deu pra parar. Não era o melhor lugar, a metade das cores já tinha se desvanecido e ainda tinha uma cacetada de fio no meio. Mas bati a foto. Pra lembrar, mesmo sem ver, do dia que vi um céu tão lindo. Mais ainda, para lembrar das pessoas importantes com quem quero partilhar o encanto. Para saber que elas existem em mim. E torcer para existir nelas. 

Então existem muitos tipos de pessoas. Espero que passem por aqui um tanto daquelas que vão olhar a foto e imaginar a beleza que não está, mas era.



Uma coisa boa (entre muitas) da central do textão, é ir percebendo os textos todos como mote, como nós, como encontros. Como se antecipam e (se) (me) explicam. O meu pôr-do-sol foi ontem e eu rabisquei o post ontem mesmo. Hoje de manhã, me deparei com esse post da Kellen e lá eu comentei: meu blog é diarinho, acho. só que nem sempre eu escrevo a coisa, ela mesma. aliás, quase nunca. daí eu releio tempos depois e faz sentido no tempo depois e pro tempo depois, mas não funciona como recordação. sinto falta, muitas vezes, de ter esse registro mais apurado e material. Daí pensei: olha só, é isso, meu post de hoje é uma dessas tentativas de memórias-diarinho-material tão importantes pra eu saber quem eu era, quando olhar pra trás. 

Pensei, também, em como sinto falta do que não escrevi esses anos em que estive em outro canto. Que não disse a cor da parede. O nome das ruas. A textura do lençol. Sinto falta do que não contei sobre os lugares onde fui, das coisas que vi, que ouvi, que toquei. Sinto falta do que esqueci de dizer materialmente, a coisa em si mesma e que só permaneceu em  vontades. Sinto falta de ter uma saudade óbvia, detalhada, descritível, nomeável. Sinto falta de todos os posts não escritos, os ninhos não preparados, os agasalhos não tecidos.


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Rapidinhas:

- De hoje não passa a máquina de lavar roupa. A arte do endividamento assustador: eu domino.

- Eu nunca vejo vídeo na internet. Tá bom, nunca, nunca é exagero. Mas é raro. É muito, muito raro. Já texto eu leio praticamente tudo que passa na minha TL, bons e ruins, os que eu entendo e os que eu mal decifro o título. Não é uma questão de tempo, é estilo. 

- Eu desacostumei a trabalhar no computador da minha sala na Universidade. Vou fazer uns adesivos, pedir um teclado novo, pra ver se desentalo. 

- Eu volto: aos filmes, aos livros, às frases, aos lugares. Mas muito raramente alguém volta em mim.

- Uso dois livros de Psicologia Organizacional pra levantar o monitor. Ver o mundo em uma outra perspectiva não pode ser só uma metáfora.

- Preciso limpar a geladeira. Mas na hora que estou descansada, estou sem tempo e quando tenho tempo, estou cansada. Eu gosto de morar só, mas nessas horas é chato não poder culpar outra pessoa.



8 comentários:

Renata Lins disse...

sobre quando você morava lá: escrevia sabores. adorava ler os sabores. e escrevia esquinas, também. acho que dava pra ter ideia. não era tudo, claro, mas era muita coisa. volta lá pra ver.
mesmo assim, tô com saudade do blog que vc não fez.

Rita disse...

Seu post vai ter filhos. Acho.

Cláudio Luiz disse...

vc foi ao supermercado em vez do posto que é mais caro?
acho que não preciso de diarinho para ter saudades dos meus dias em Mossoró, que não é quente como dizem (ou não foi aqueles dias) mas, aquece por demais o coração.
os céus mais bonitos que já vi foram no porto.

Stefani S. disse...

1 - Abobrinha <3
2 - consigo muito imaginar esse céu ainda mais lindo...
3 - se tem uma coisa que temos que registrar é a beleza e as coisas que nos tocam, gostamos... também quero isso com meu blog... desabafar é bom, mas escrever sobre as belezas é ainda mais importante, porque depois conseguimos ver tudo que foi também bom na vida.

que post bonito!!
beijo!

BethS disse...

gostaria de poder escrever todo dia, é tão bom, tão bom escrever.
mas as coisas de dentro que pedem, clamam, por serem colocadas em palavras, ainda não ficam confortáveis aqui no lado de fora.
acho que um espaço bem pessoal, como um blog, é o ideial.
viva a central do textão.
te amo lu.

Luciana Nepomuceno disse...

Renata, tem as esquinas e o jardim, é verdade. e comidinhas. vou dar uma passeada na saudade.

Cláudio, fui ao supermercado, precisava da abobrinha, rs. o céu do porto é mesmo lindo, mas chove um pouco a mais ;)

Rita, oba.

Beth, o que eu preciso escrever mas não consigo que leiam eu coloco em um blog só meu, daí fica lá, de vez em quando eu resgato, burilo... recomendo.

Luciana Nepomuceno disse...

dei enter antes de terminar, Beth, viva a central do textão e viva nós, que não temos vergonha dos afetos <3

Stefani: também acho importante, o bom e o belo, alimenta né? (adorei sua visita aqui)

Marissa Rangel-Biddle disse...

Ain, que amor. Esse post vai dar filhotinhos que Rita ta eh certa!

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