terça-feira, 24 de maio de 2016

Permanências

Status: harmonizando a mala permanente no juízo com uma rede ininterrupta na varanda.



Eu tive duas avós maravilhosas. Já falei delas aqui. Porque me lembrei de trazê-las pra conversa? Por causa da rede. Essa aí, armada na varanda. Eu tinha, sei lá, catorze, quinze anos (ou mais um pouco? Mas não passava dos dezesseis) e ela me deu essa rede de presente. Pra namorar, ela disse. E eu, que nem gosto de rosa, nem notei a cor. Estava doente, minha avó. Bem doente. E ela ainda pensava em todos, cuidava de todos. Estou revendo Grey’s Anatomy e na terceira temporada tem uma paciente, entre quarenta e cinquenta anos, com um diagnóstico definitivo. Vai morrer e vai morrer logo. E o que ela faz? Dá conselhos aleatórios pra filha adolescente. Antecipa conselhos. Coisas que ela supõe que diria, em algum tempo, que a filha precisaria ouvir, ela diz antes. É um jeito de “estar lá”. Sempre que eu vejo esse episódio lembro da minha avó. Ela tinha muitos anos a mais. E filhos e netos e bisnetos e trinetos (escreve assim?). E ela distribuiu conselhos e coisas – como minha rede. Antecipando. Mas, dizia eu, ela me deu a rede pra namorar. Nesse tempo – rá – a gente namorava “em casa”, sendo essa casa, claro, a casa dos pais. Namorava-se no sofá. Nas cadeiras da área, uma do lado da outra. No máximo, no banco na calçada. E ela me deu uma rede pra namorar. Pra armar na área e deitar com o namorado. Intimidade. E eu recebi sem perceber a incrível ousadia que era. Sem pensar, inclusive, que podia ser uma ousadia. Porque ela era a avó da propaganda de margarina: cabelos brancos e bolo. E esse, acho, é um dos grandes presentes que minha família – ela toda, não apenas minha avó materna, mas também ela, especialmente com a rede – me deu: a mistura de comportamentos tradicionais e avançados e a naturalidade ao lidar com eles. Eu sinto saudade da minha avó. Da voz, do cheiro, do rosto, da nata no pão no lanche da tarde. Mas quando dói, eu olho a rede e sei.

A vida como uma canção em looping: esse silêncio todo me atordoa.

Se eu fosse boa. Teria ido. Teria dito. Teria entendido. Se eu fosse boa, teria deixado. Teria te deixado. Deixado ir. Se eu fosse boa, teria me despedido, anunciado, explicado. Teria evitado. Se eu fosse boa teria soltado a mão. Ou cortado a ligação. Desligado o telefone. Os aparelhos. Se.

A gente sofre de teimoso quando esquece do prazer. Ou quando não.

Tem o mundo todo, não é? O governo golpista que atropela o Brasil. A questão do Estado Laico, aqui e acolá. E a tentativa de não escorregar no etnocentrismo. As grandes questões. A Economia, do E maiúsculo. A política, minúscula, de bastidores e excremento. O capitalismo, sem perder tempo em definir tamanho de letra, por todo lado, sem pejo. Eu não sei os argumentos. Eu não decoro os números. Não recebo os furos de reportagem. Não sei em primeira mão. Não li os grandes textos. Não defino cenário, conjuntura, contingências. Eu tenho um punhado de valores, umas questões miudunhas e uma vontade do bom. E uma rede, rosa, na varanda.

5 comentários:

Renata Lins disse...

Eu só tive uma avó. A outra era, parece, desse jeito aí. De bolos, de sorrisos e de colo. Mas ela nunca foi avó, apesar de ter tido uns 30 netos. Ela morreu quando minha prima mais velha ainda não tinha nascido (eu sou a 10a). Diz que ela decorava bolos lindamente. E ela sempre teve cabelo preto.
Minha mãe é, eu acho, a filha mais parecida. De rosto, pelo menos.
Talvez tia Zélia seja a mais parecida de jeito. Não sei.
Vim contar, viu.

Rita disse...

Eu também só conheci uma avó. Uma vez ela ficou comigo pra minha mãe fazer uma viagem. Ela rezava muito, várias vezes por dia, novenas, terços, tudo. Eu tinha uns 10 anos, talvez, e embarquei totalmente na onda, nunca rezei tanto na vida. Acho, inclusive, que gastei a cota toda naqueles dias. Talvez isso explique. :-) E ela adorava coalhada, sabe aquela? Pois, eu nem gostava, mas tomava por causa dela. E a gente dormiu no mesmo quarto uns dias, eu achei tão divertido aquilo. Ela era doce, doce, doce. Não sei se vocês viram na minha TL do face outro dia, minha tia botou uma foto da minha avó com todos os filhos, nos anos 40. Uma preciosidade. Se quiser, olha lá, Lu. Coisa mais linda. Obrigada por essa rede. Bj.

Luciana Nepomuceno disse...

Eu me sinto tão contente de poder saber das avós de vocês. Tão generosas vocês, de partilharem as ausências e presenças.

Rita, vou espiar a fotografia sim, gosto muito dessas lembranças.

Marcelo Paes disse...

Ter avós é muito bom. A minha morou sempre com a gente, não tem um dia que não me lembre dela. Avó e avô atravessam a nossa vida. Bonito texto :-)

Marissa Rangel-Biddle disse...

Um presente de avo que vem com instrucoes importantíssimas: eh pra namorar. Adorei.

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