sexta-feira, 13 de maio de 2016

Não Estou Só

A amiga avisou: hoje a noite tem Bethania na TV Brasil. E eu quase um sorriso. Liguei a tv. Ver e ouvir Bethania é lembrar que há um Brasil profundo. Mais: é lembrar o que há nesse Brasil. As ribeirinhas. Os sertões. O milho e o feijão. Fogueiras e cantorias. Viola. A vida em estado de poesia. Gente. Gente que deve brilhar, não morrer de fome. A gente lembra a beleza e a potência. O batuque. As enormes panelas. A colher de pau. Os abraços. Os braços. Passos. Ela samba de ladinho. A leveza. A beleza. Os homens que me amaram bem mais e melhor. E os das entrelinhas, que não suportam ver tão feliz. Ou mesmo um pouquinho menos triste.



Bethania canta e eu choro. E rio. E danço. Na varanda, de novo. Eu sinto o fel saindo no suor, na lágrima. A limpeza. Bato o pé. Bato palmas. Preparo a invasão. Doces e bárbaros. Pulo. Rodopio. Fico tonta de mim mesma. Empilho latinhas de cerveja. Avançando através dos nossos portões. Os planos de novo tão bons. A voz. Dela. E mais. Margareth Menezes. Todo mundo é de Oxum. Eu vou navegar. Sinto as marés. O mar por dentro. O sal. Que dá sabor. Tieta que sou, respondo sim. Quase rouca, já. E reencontrando a voz. O grito. A luta. Cada vez que o mundo diz não.

Eu sou a sereia que dança destemida. Sinto meu corpo. Dolorido, mas meu. Maltratado, mas meu. Feito de lugares tantos. Moldado na voz sertaneja dos tios. Nos abraços dos agentes de saúde. Nas caminhadas políticas, vermelhas. No prazer nos corpos outros. Meu corpo. Pra defender, cuidar, lutar, gozar. Sambar. Recôncavo e reconvexo. E  je ne regrette rien. Lembro a amiga, comigo, do outro lado do mar, inocentes da hemorragia que seria. 


Ver e ouvir Bethania é lembrar que há um Brasil profundo. Mais: é lembrar o que há nesse Brasil. Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Repetir e acreditar no óbvio: a vida devia ser bem melhor e será. Com luta. Com choro. Com força. Com biscatage. Com prazer subversivo. Com dor. Sim, com retrocessos. Hoje, a morte. Mas a pergunta roda. Eu fico com a voz da Bethania. Eu fico com a ingenuidade. Fico com a amizade. Com a paciência. Com a resistência. A teimosia: é bonita, é bonita e é bonita.

A vida, essa porra de vida, a vida na margem, a vida no interior, a vida dos corpos errados, a vida que insiste. Que chama, chama pra sambar. Meninas, somos. E não estamos sós. Está doendo e é pra doer mesmo. Mas como disse a outra amiga: vai ter choro e vai ter luta. E digo eu, o que sei que ela também diria: vai ter riso e amor e abraço e festa. Sempre que der. E quando não der a gente subverte.

Ver e ouvir a Bethania é lembrar: eu não estou só.

(vale a pena ver o vídeo e ver tudo virar Carnaval)



PS. Eu sei, é como a maré, eu enchi, amanhã será vazante. Não faz mal, no agora, o mar está pra peixe.

Um comentário:

neutron disse...

você me deixou sem palavras. é o sentimento que todos nós, amantes da bethania, temos. coisa incrível. você fez sentimento em forma de texto <3

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