domingo, 22 de maio de 2016

Maresia

Eu navego. Sem rumo. Sempre gostei de filme de pirata. Ou sobre a marinha. Filme com barquinhos, de maneira geral. Daqueles que parecem nunca vão chegar a algum lugar. Ocasionalmente, eles se distraem e se justificam: descobrir alguma coisa, roubar um outro navio, vingar-se de alguém. Às vezes, porto. E parece que ficam. Uma mulher. Uma garrafa. Mas nunca basta: nem a mulher, nem a garrafa, nem o saque, nem a descoberta. O mar. O mar é que interessa. O movimento. Maresia.

Teu peito era porto. Eu pensei que ficava. Joguei âncora, lancei cordas. Acostumei o balanço do corpo à imobilidade do terreno. Descobri esquinas e em todas elas me encantei. Vi as belezas do que permanece. Vi nascer, vi crescer. E pensei que era bom. Pensei que ficava. Finquei estacas. Preparei a terra. Pro plantio. Pra construção. Escavei para alicerces. Mas a maresia. O ventro que trazia o horizonte. A vontade do que não tem nome. Vou só olhar o mar. Cada dia, no porto, um tempo a mais. As ondas batendo suave. Susssurrando o convite. As promessas de sempre. E de nunca. Molhar os pés. Juro, só molhar. Ou um mergulho. Melhor um mergulho.

Quanto mais sentia o mar no peito, mas insistia nas permanências. Promessas. Alianças. Garantias. Terra. E, por dentro, a lista de mantimentos. Os mapas de navegação. Velas. Balanço. Eu não podia ir. Eu já não sabia ficar. A maresia desgasta, sabia? Ela corrói promessas. Ela enferruja planos. Ela racha vínculos.

Vou ao porto. É rapidinho. Só dar uma olhada. Quem sabe molhar os pés. Ou um mergulho. Volto logo. 



Quando eu era criança, domingo era dia de farrear. Na praia, no sítio, mas, principalmente, na casa dos avós, com os primos. Não lembro de muita coisa, vocês sabem, mas lembro da alegria. Domingo era dia da lei do cão. Não havia vazios.

Depois, domingo era dia de cinema. De pescar. De encontrar. No depois do depois, domingo era dia de despedida. De estrada. Não havia vazios.

Agora, domingo é o dia do nada. Talvez um café com a irmã. Talvez. Uma bom dia carinhoso na caixinha. Rápido. Esperar pelo Flamengo, eventualmente. Preguiça de ver qualquer coisa nova. Fico meio dormente. O que há é vazio. O vazio.

Daí navego escrevo.

Uma coisa puxa outra, pensei em Simbad. Eu não sei quando vi meu primeiro Simbad (eu queria ser phynna, mas minhas referências são de sessão da tarde). Eu só sei a (minha) vida em retrospctiva, inventando sentidos, recriando momentos. Ficção, eu disse. Pois bem, Simbad. E as ilhas distantes e as criaturas supreendentes e a navegação. Sempre indo. Eu li uma crítica bem ácida à Simbad e o Olho do Tigre. E enquanto eu lia eu pensava que o que estava sendo escrachado é que encheu meu mundo e me encantou. Tudo colorido demais. Over. A capa de Sinbad é verde, o turbante é rosa, a camisa vermelha e a calça amarela. Sim. A repetição das mesmas saídas dramáticas na série. Sempre o feiticeiro malvado, sempre a luta entre duas criaturas fantásticas. Sim. Os heróis demasiado ingênuos, revelam tudo para o bandidos, nas conversas, são demasiado confiantes. Sim. Ou seja: a fantasia sem pudores, o gozo da repetição e a beleza da bondade que insiste em acreditar nas outras pessoas.

E, claro, como eram divertidos esses filmes. O amor e a amizade como motor de (quase) tudo. Não te amaria tanto, querida, se não amasse muito mais a honra – e a aventura, acrescentaria Simbad, se conhecesse a poesia.





7 comentários:

Tina Lopes disse...

Eu queria mais filmes de piratas e de navios. Aqueles em que a Rainha Elizabeth vai pra cozinha transformar o pirata em Sir. A gente já falou sobre isso, antes. Hoje penso que devia ser feito um filme sobre navios negreiros e sobre as caravelas de Portugal. Mas e o medo de colocarem um piá imberbe branco pra todos os papeis importantes? Tudo hoje é muito mais difícil.

Luciana Nepomuceno disse...

Tina, sim, queria muito, muito muito mais filmes de pirata. E contextualizados. Novas leituras. (mas, sim, os piás sem graça me assustam). Tantos atores negros maravilhosos pra comandar revoluções em navios negreiros. Viola, ai, ai.

Renata Lins disse...

Olha que curioso. Fui lá escrever um, já que ontem não e eu queria manter. Antes de ler o seu. E acaba sendo meio que sobre algo parecido, embora dito de outro jeito, de outro ângulo. Âncoras, amarras, vento, marés.
Simbad. Lembro do meu primeiro: foi no cinema e era um desenho.
Lembro do meu último: foi na TV e também era um desenho, que eu amei. Na versão brasileira, Giovanna Antonelli faz a voz da mocinha e me desconcentrava um pouco, porque eu reconhecia demais. Mas amei.
e fiquei pensando se você conhece Sandokan, o tigre da Malásia.

Luciana Nepomuceno disse...

Também gostei muito dos desenhos, mas meus Simbads preferidos são desta trilogia aí: Simbad e a princea, e o olho do dragão e a nova viagem de simbad.

acredita que eu não conhecia Sandokan até ir pra Lisboa?

Rita disse...

Eu tô a bordo do Beagle esses dias - ainda vou escrever sobre. E lendo seu post fiquei pensando numa frase de ódio ao mar que o Darwin escreveu depois de anos sofrendo com os enjoos, hahaha. Desculpa o comentário fora do clima, mas quem manda nas associações, néam.

beijocas acenando do porto.

fal, a mal disse...

Ninguém escreve como vc. <3

Luciana Nepomuceno disse...

ai, fal, são seus olhos

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