domingo, 15 de maio de 2016

Magia e Espaguete

Eu hoje queria dar um viva para o cinema europeu, especialmente o italiano. Aquele cinema que faz filme aparentemente sobre nada. Sobre a vida banal. Pessoas andando de bicicletas. Comprando leite. Varrendo o quintal. Nos filmes americanos sempre está acontecendo ou vai acontecer alguma coisa. Mesmo que você seja irrelevante, alguma coisa impressionante vai lhe acontecer. Um ET vai aparecer no seu quintal, por exemplo. Você pode ser um bêbado esquecido, mas vai pilotar um avião com o presidente dos EUA no caça ao lado e vai salvar a humanidade. Não se engane com a vida cotidiana, ela é um respiro para os grandes eventos, foi isso que nos ensinou o cinema hollywoodiano. Nos filmes europeus, quase sempre, não. As grandes pessoas? Ficam resfriadas. Tem diarréia. Fazem as unhas, cortam cabelos. Todo mundo come. Dorme. Conversa. Fazem muito isso: falar. O dia passa sem que tenham feito muita coisa. E nada lhes aconteceu que lembre vagamente a salvação da humanidade. Quando muito, salvaram uma amizade e que alegria que é. Eu nem sei contar quantas vezes vi alguém, nos filmes americanos, sair correndo e deixar coisas inacabadas. Porque algo urgente aconteceu. Panelas ficam esquecidas no fogão. Compras sobre a mesa que nunca serão guardadas. Camas em desalinho. Portas abertas.

Eu hoje fui ao supermercado. O de sempre: me irritei com os carros mal estacionados, me diverti nas prateleiras, senti saudades de supermercados outros, demorei nos legumes, passei incólume pelos produtos de limpeza, peguei coisas que sei que não posso pagar, dei voltas e devolvi à prateleira, entrei na fila, vim pra casa. Estava ali, naquele momento em que você carrega peso demais, peso a mais do que poderia só pra não voltar ao carro pra pegar mais sacolas e pensei: então minha vida vai ser isso? Minha vida é isso? Nada mais vai “me acontecer”? Vou passar os dias comendo, me irritando, rindo, cozinhando, bebendo sozinha ou acompanhada? Minha vida é dar aula, pesquisar, ver séries no computador e futebol na televisão? Carregar peso a mais pra não ter que dar mais uma viagem pra buscar as sacolas? Cadê o meu ET no quintal? Quando vou salvar a humanidade? Quando Bogart vai se despedir de mim em um aeroporto enevoado? Quando vou precisar sair correndo por algo urgente para a Humanidade e deixar as sacolas no meio da sala, abandonadas? E eu quase chorei. Nada mais vai me acontecer. Nada. É isso, a vida. Daí lembrei dos filmes europeus. Mais exatamente, dos filmes italianos. Mas precisamente do Ettore Scola. Daqueles filmes em que a vida é isso, acordar, sentir, comer, beber, rir, morrer. Ter encontros. Bons e eventuais encontros. Com alguém. Consigo mesmo. Todo mundo termina de lavar a louça. De dobrar a roupa. De guardar as compras. Principalmente, ninguém esquece panelas no fogão. E passar no tempo. E o tempo passar em nós. E a História de H maiúsculo importar não porque o H é tão maiúsculo, mas pelo pão, pelo vinho, pelo que nasce, pelo que morre. 

Eu hoje queria dar um viva ao cinema italiano. Somos, também, o que as narrativas fazem de nós. E o que fazemos com elas. É preciso referência. Símbolo. Cenário. Memórias emprestadas. Inventadas. Bibelôs que arrumo na estante, aquela, encostada na parede da memória. Guardei as compras. Abóbora, cenoura, cebola, batata, alho. Coisas geladas. Armário. Geladeira. Sorri, feliz, pensando no que fazer com a abobrinha. Estoquei água de coco. Abri uma cerveja. Liguei o computador. Vida que segue. Como disse Fellini (e se não disse, deveria) a vida é uma combinação de magia e espaguete.


4 comentários:

Anne disse...

Pensei nisso hoje cedo. Acordar, comer, rir. Cadê o ET no meu quintal?

Anne disse...

Pensei nisso hoje cedo. Acordar, comer, rir. Cadê o ET no meu quintal?

Gilson Rosa disse...

já eu to a dias e dias vendo filme japones.mais especificamente filme japones com samurai. e o contrario; depois eu te conto.

Laís disse...

que texto lindo! <3

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