segunda-feira, 9 de maio de 2016

Parede da Memória

Eu sempre tive uma certa inveja de quem tem boa e boas memória(s). De quem se lembra das coisas que viveu na infância e essas coisas incluem, sei lá, ter sentado no colo do Vinícius uma vez que ele foi visitar o primo que era muito amigo do seu pai. Memórias assim que todo mundo ao meu redor parece ter. Eu não tenho.

Lembro (sou lembrada, funciona mais como voz passiva) pelo que foi fotografado ou narrado por outras pessoas. Onde devia estar minha memória tem um velho álbum empoeirado.

Mas o que mais faço mesmo é inventar. É isso, eu invento. Não situações. Não encontros. Não pessoas e diálogos. Invento sentimentos, descobertas, momentos íntimos – como o nome dos livros que, esses sim, lembro mesmo, li na adolescência.

Quando eu descobri a saudade. Inventei. Como me fiz de bem comigo mesma. Inventei. Como aprendi a amar. Inventei. O riso fácil. Escolhi e inventei. Aquela vez que ouvi ópera e decidi morrer cedo. Inventei. A dúvida sobre o tamanho da saia no primeiro encontro com aquele moço. Inventei. Cada ansiedade, cada alegria, cada audácia que é em mim, tudo inventado. Pouco importa que, vez ou outra, tenha ocorrido exatamente como narro. Ao escolher palavras, invento. A vida é uma obra de ficção, não inventei, li e acreditei. Acho, até, que acreditei antes de ler – mas posso estar inventando, também.

Inventei, também, esse lugar pra você. Na minha vida. Paredes claras, espaços amplos. Algum veludo – pedi desculpa pela obviedade. Almofadas. Das histórias da infância, trouxe o tapete mágico, pra você dizer: põe-te mesa. Dei o que eu não tinha, porque - disso me lembro – é assim o amor. Não esqueci portas e janelas. Belas vistas e uma estrada para ir embora – se quisesse. Ou quando – disso também insisto em lembrar. Coloquei cada coisa no lugar para melhor lhe caber. Ali. No lugar que inventei para você na minha vida. 

Por isso não sei o que fazer quando você ignora a decoração, as paredes, as fronteiras e sai ocupando vazios, bagunçando tudo por aqui. E ali. E acolá. Não sei o que fazer quando você se espalha, ignorando a lembrança que ando inventando como história pra nós e insistindo em existir além do que consigo dizer. Você não me dá tempo de inventar uma luciana que sabe ser nesse agora. Sigo improvisando. Mas não garanto o fôlego.


Claro que lembro Belchior. Outra vez. Um dia, quem sabe, seremos retrato na parede e ecoaremos em canção.

De invenção em invenção, criei meu próprio labirinto. Cada memória que invento, um corredor a mais que leva a lugar nenhum, mas enriquece o projeto.  

Um comentário:

Marissa Rangel-Biddle disse...

Beijos. Beijos. Beijos. Que dia ruim. Vamos inventar uma memoria boa para esse dia?

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