sábado, 14 de maio de 2016

Do Possível no Impossível

Separação é um negócio chato. Quanto mais tempo as pessoas passaram juntas, mais chato fica. Isso é meu, isso é seu, isso não dá pra saber. Chato. Se as pessoas também tinham um relacionamento afetivo-sexual enquanto moravam juntas, eita, complica mais. Porque geralmente o momento da separação é concomitante com algum ressentimento, uma sensação de incompletude, perda, talvez culpa, raiva. Desassossego.

E nós vivemos em uma sociedade que, por mais que tenha melhorado uma coisinha, ainda tem toda uma narrativa de felizes para sempre. E toda uma estrutura que valoriza e privilegia esse arranjo. Sem falar da mentalidade da culpa. A culpa tem que ser de alguém pras coisas não terem dado certo. Como se a vida fosse uma máquina, que lubrificada direitinho, funciona. É, isso de separar é chato.

Se existem crianças envolvidas, aí a porca torce o rabo se não for bicó. Tudo que é valor conservador e moralista emerge que nem esgoto em bueiro entupido. Posições naturalizadas sobre maternidade, por exemplo. Discursos binários de certo e errado, bem ou mal, do lado de quem você está. As narrativas cinematográficas não colaboram muito pra quebrar esses padrões. Daí a genialidade do enredo de Grey’s Anatomy, na minha opinião. Temos Callie e Arizona, duas mulheres incríveis. Duas mães incríveis. Duas personagens bem construídas, com falhas e belezas. Elas se separaram com relativo diálogo. Dor, mas respeito pela própria história e uma pela outra. Partilham a guarda da filha. E daí uma quer mudar de cidade, com seu novo amor. E, ué, porque ela não poderia ter um sexo bom, alguém em quem confiar e o relacionamento que ela deseja? Ela faz planos, nova cidade e se preocupa com a filha, escola, etc. (bem atentos aqui que se ela tivesse decidido ir com a Penny sem conjecturar levar a Sofia, o pau moralista tinha comido nas avaliações sobre a personagem, né). E tem a outra mãe. Que não vai. Que não quer ver a filha só nas férias. Que não foi consultada sobre o arranjo (mas se fosse consultada, sejamos honestos, não mudaria nada).



O impasse. E aí, amiguinhos, o que passa a operar não é mais a relação das duas. Mas a estrutura. E a estrutura é machista. A estrutura tem aquele ranço que ignora desejos e prazeres e foca em culpa, sacrifício e maternidade clichê. A estrutura faz a advogada da Callie perguntar pra Arizona sobre a responsabilidade e envolvimento no trabalho como se fosse demérito. A estrutura machista faz com que a advogada pergunte à Arizona sobre novos flertes e noitadas em bares. A estrutura machista culpa a namorada nova por não ser cuidadora e maternal “o bastante”. A estrutura machista está ali, mesmo sem ter nenhum homem na sala. Mesmo sem nenhum homem ser beneficiado ou prejudicado no arranjo. A estrutura machista é uma localização, um selo de errado pra mulher. Pra qualquer mulher. E os roteiristas não perderam a oportunidade de pontuar isso. Bailey, que mulher.

Daí a genialidade da série, acho e repito. Porque a pergunta que fica é: como poderia ser diferente? Com mais conversa? Com menos certezas? É errado querer partir com a namorada? é errado ter muitos rolos e sair de noite quando se é mãe solteira? Principalmente: temos que tratar as questões em torno de certo e errado?

Eu fui #teamArizona. Não porque eu achasse que ela tinha um motivo melhor. Não porque eu achasse que havia a possibilidade de alguém ter um motivo melhor. Mas pelo caminho que ela escolheu no julgamento. De dizer: eu sei que a Sofia vai ficar bem porque nós somos as mães dela. Então, não tem lado certo. Mas pode ter argumento certo. É uma coisa que eu insisto sempre: o como define o “o quê”.

Separações são uma droga. Mas podem ser menos piores se não trouxerem junto a culpa de não cumprirmos um destino de felizes para sempre. Definições de guarda e cuidados são uma droga, mas seriam menos piores se não arrastassem os estereótipos de maternidade, a culpa, as obrigações, a personalização do cuidado. E se a vida fosse vista como menos definitiva. Com arranjos mais fluidos. Com cuidados partilhados. 

Eu sabia disso, faz quase 18 anos que eu vivo uma situação não muito convencional. Sou amiga do meu ex marido. Sou amiga da atual esposa do meu ex marido. Já dividimos a semana. Já alternamos semana. Já morei em uma casa, o pai em outra e o nosso filho com nenhum dos dois, com os avós. Já morei com meu filho em outra cidade e meu ex se rebolava pra vir aqui. Agora meu filho mora com eles e eu me rebolo pra lidar com isso. É uma droga. É chato. É rico. É complexo. É prazeroso. É divertido. É aprendizado.

Eu sabia, mas ver na série, tão didático, como poderia dar errado, como era tão fácil dar errado, como resulta mal até pra pessoas incríveis como Callie e Arizona…porque são muitas forças e a gente mal consegue resistir só com nossos valores. Porque esses valores também foram construídos nesse caldo. Mas vale.

Eu não fiquei com raiva da Callie nesse lance. Eu a entendo. Entendo que ela queria ir e que ela não entenda que as pessoas que ficam, sofrem, e não tem que lidar com a vida como ela espera. Entendo que ela tenha tido medo e perdido as estribeiras e ido pelo caminho machista e da culpa. Entendo que ela agrida como uma defesa prévia. Entendo que ela tenha seguido o fluxo comum, mães se mudam e levam seus filhos. Assim. Sem pensar. Sem alternativas. Entendo. Entender não é justificar. Ou apoiar. Não precisamos de lados, precisamos de opções. 

Eu não fiquei com raiva da Callie no episódio da guarda. Fiquei com pena. Não dela ter perdido. Mas dela não poder se orgulhar do caminho que trilhou. Mas eu fiquei com raiva no episódio seguinte. Não dela, especificamente. Mas do roteiro, tão preciso. Ela não vai. Ela termina com a namorada. E ela ocupa o lugar de coitadinha. Agora a culpa é dela. E ela vai expiar. Um lugar que ninguém lhe destina especialmente, mas que ela corre pra ele. E essa é uma outra narrativa que cabe pras mulheres. Abrir mão. Resignação. Expiação. Pagar pelo pecado. Achei coerente (até porque eu sempre soube/esperei/desejei que Callie não fosse, como ficar sem esse personagem no cotidiano da série?) mas triste. Pelo meu gosto, em uma improvável vida real, ela iria. Eu desejaria que ela nos ensinasse isso.

O episódio 23 foi, de maneira geral, um balde de água fria em mim. Não que tenha sido ruim. Foi bom. Mas ele lembrou que toda aquela leveza não é um dado. E não é um sempre. Então temos o impasse do Karev. O cansaço do Richard. A teimosia da Miranda. A perda da Stephanie. Foi pesado pra mim. 

Dois bônus invertidos: 1. a decisão da Amelia. Por um momento, pensei que seria um agora vai. Que ela se recusaria a entrar na casa de Owen, diria que ia ter a casa dela pra eles poderem ter uma história juntos, cada um preservando a sua própria história. Mas não. 2. O beijo da Meredith: como eu detesto esse caminho da animosidade como passo primeiro da tensão sexual (quando é no meio de uma relação é diferente, eu curto). São dois bons motes pra o desenvolver da série. Mas são duas situações que me desagradam.

O alento é que é Grey's. Diferente de separação e disputa de guarda, Grey's nunca é chato. 

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