sexta-feira, 20 de maio de 2016

Demônios


Escrever, eventualmente, exorcizar demônios. Espero que sim, porque desde ontem eles estão fazendo o maior estrago cá dentro. Eu gosto do meu trabalho. Não gosto muito de trabalhar at all, mas gosto do meu trabalho. Quase sempre gosto do que faço e como faço. E vou tentando melhorar, escutar, essa coisa toda.

Aí, ontem. Eu chego, estou ligando o equipamento, uma aluna entra na sala, vem até onde eu estou e me diz: professora, eu só queria avisar pra senhora preparar seu coração que vem um aluno aí com a blusa bolsonaro-presidente. Meu chão balançou. A vista nublou. Eu engoli em seco, agradeci a delicadeza, tentei continuar o que eu estava fazendo. E tentei respirar normalmente a noite toda. Mas foi difícil. Pouco menos de quatro horas com a garganta travada. Pigarreando pra falar. Focando só em um lado da sala.

Muitos demônios. A sensação de incompetência. Um semestre inteiro comigo e a pessoa ainda consegue pensar e sentir isso. A sensação de que fui agredida, vir trajado assim justamente no dia da minha aula. Alternada a isso a sensação de irrelevância, não é comigo, é simplesmente a forma do trator atropelar a gente mesmo. A impotência. A angústia. A inserção proposital de temas transversais na exposição pra indicar o absurdo daquilo. A impressão de estar desvirtuando o processo da aula por razões minhas. E a culpa. A desconcentração. As indiretas. A vontade sacudir – sim, não é bonito. Daí lembrar que eu ensino na outra disciplina que a Universidade é lugar de formação cidadã e não só técnica. Aí pensar que estou tentando justificar meus próprios absurdos e isso é me igualar a “eles”. Daí pensar que delimitar um “eles” é falacioso e justamente fonte do tipo de pensamento que sustenta a vontade de um bolsonaro presidente. Os círculos. Volta a sensação de incompetência. O engasgo. O embrulho. Demônios.

Fracasso, fracasso, fracasso, sabe? A impressão que eu tenho é que está todo mundo fazendo a diferença, mudando o mundo, sei lá e eu aqui, inútil, com um aluno que se dá ao trabalho de vestir a camisa bolsonaro pesidente - eu escrevo e eu não acredito. Daí lembro. Fracasso.

No fim da aula dois outros alunos vieram falar de qualquer coisa comigo. Puxar assunto. Quase dizendo: liga não, professora. Mas eu ligo. Dói. Quase quatro horas. A volta pra casa. A tentativa de superar. A inesperada pamonha e o queijo. Ler os blogs da Central do Textão. Um episódio de grey’s. Rever as fotos do filho. Alguma coisa. Qualquer coisa. Respirar.

Esse post não tem moral da história. Não tem resposta. Não tem sequer vislumbre de uma. Foi horrível. Está sendo horrível. Fica só a sensação de que eu não estou fazendo alguma coisa que eu deveria. E eu nem mesmo sei o que é.

Sugestões nos comentários, se faz favor.

19 comentários:

Marcela Zaidan disse...

Excelente texto! Todos nós temos que lidar com esses demônios.

Gostei muito do seu blog!

Marcela Zaidan disse...

Essa sensação de fracasso é universal, não é só sua. O fato é que a maioria das pessoas tenta maquiar a realidade e esconde os mosntros, os demônios e os fracassos embaixo do tapete.

As redes sociais apenas escancararam isso. Mas sempre fomos assim:


"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

(Fernando Pessoa - Álvaro de Campos)

Luciana Nepomuceno disse...

Marcela, obrigada pelo comentário e pela maravilhosa lembrança do poema. Me senti confortada (embora ainda entristecida). Beijos e volte quando quiser, vou adorar

Rita disse...

Flor, eu diria como lidar com seu aluno. Mas antes preciso aprender a lidar em meu coração com amigos que concordariam com ele. Beijos e fique bem.

Luciana Nepomuceno disse...

Sabe, Rita, eu sinto diferente quando a pessoa é adulta. Eu espio com atenção de onde vem aquela posição e me decido na forma de lidar - que vai da indiferença ao confronto, passando pelo distanciamento abrupto ou preogressivo. Mas as pessoas jovens me desestabilizam.

Cláudio Luiz disse...

______o_____
abraços suaves.
Para ver um outro foco - me representa.
"Não gosto muito de trabalhar at all, mas gosto do meu trabalho. Quase sempre gosto do que faço e como faço."
Diga-se de passagem, me representa não só nisso e me ensina milhões. Tanto que evito comentários machistas e não uso camiseta bosta presidente ;c)
gosto imenso de ti (com sotaque pra ficar mais confortável)

Mary W. disse...

eita. mas vejo um lado bom. de ele ir justamente na sua aula. é um confronto. mas é tb um jeito de querer te contar. nao sei explicar. acho q ele querer "debater" isso com vc já é um sinal. claro q nao ha debate com autoritarismo. mas essa sinalizaçao indica q talvez ele perceba adiante.

Luciana Nepomuceno disse...

Cláudio, querido, eu sempre fico toda paba quando você diz coisas assim. Também aprendo muito com você <3

Luciana Nepomuceno disse...

Mary, acho que entendi o que você quis dizer. foi uma forma de comunicação, então ainda tem uma fresta de comunicação possível, né?

Léli disse...

Lu amei teu texto! E concordo com a Marcela, que disse que a sensação de fracasso é meio geral. Eu tento muito nutrir a esperança de que eles não passarão, mas dói! Dói algumas vezes ver pessoas próximas da gente defendendo ou acreditando, é acreditando, no que um Bolsonazi, ou Marco Felicity dizem é a verdade, é o que deve acontecer para que o mundo melhore. Porque todo mundo está buscando esperança no mais fundo do seu coração para fazer a verdadeira mudança. Então eu olho pra tua história e penso que SIM, TU TÁ FAZENDO A DIFERENÇA E TÁ FAZENDO TUA PARTE, afinal... de uma sala inteira apenas um ainda está nesta ideia de que bolsonazi daria pra ser presidente. É difícil compreender como alguém consegue gostar de um ser que só destila ódio. Mas... não há outro jeito se não respirar fundo e continuar a luta diária.
Não sei o que te sugerir além de segue tua luta, estamos junt@s, só estamos espraiadas, mas juntas! Força! <3

Luciana Nepomuceno disse...

Léli, a delícia do blog é ter essa resposta, esse comentário teu, porque anima, nutre, inspira. Obrigada por me fazer ver por outro ângulo. :-)

Stefani S. disse...

Lu [pode chamar de Lu, né?], o trabalho de desconstruir preconceitos, ódios, etc, é de formiguinha. Uma amiga me falou isso nesses dias. Acho que essa nova fase dos blogs [graças à CT] veio em ótimo momento porque nos unimos àqueles que estão na mesma luta, no mesmo sentimento de fracasso generalizado, mais ou menos engajados. Não se responsabilize porque por mais que suas aulas contribuam, cada ser tem sua própria história e razões pra acreditar ou não no que quer que seja, inclusive no Bolsonazi [amei]. É preciso continuar com o trabalho de formiga porque uma pessoa que já se livre desse ódio é uma vitória.

beijo

Luciana Nepomuceno disse...

Stefani, pode chamar de Lu, lógico :)

e sim, eu aprendi com papa freud que ensinar é uma das três profissões impossíveis. mas, né, a gente tem aquela esperança teimosa. Você disse bem: reconhecer meu limite e fazer o possível como formiga.

Juliana disse...

Ei, preciso entender mais disso aí de que ensinar é uma das três profissões impossíveis. Talvez eu me livre da eterna sensação de incompetência.

E, Lu, um abraço em vc! A gente tem é de respirar fundo e ter paciência. Tem ninguém mudando o mundo nada - não nesse sentido que a gente deseja.

Nessas ultimas semanas já chorei algumas vezes por causa das minhas crianças lindas e fofas de 12 anos, tão jovens e já ap alcance de tanto ódio. Aí fui me convencendo de que o posso fazer é ser um ponto dissonante e amoroso em meio às verdades que ensinam pra elas.

Faço coro com as coisas todas sensatas que seus amigos vão dizendo aqui.

Beijos.

Luciana Nepomuceno disse...

Ju, vou ver se no fim de semana faço um post sobre isso (adianto que são: ensinar, governar e curar).

Sabe, as coisas que você conta sobre seu trabalho sempre me inspiram, apesar do público muito diferente.

Como agora: ser um ponto dissonante e amoroso <3 #dicaperfeita

BethS disse...

Lu, eu vi duas coisas interessantes na tua historia:
1. o garoto da camiseta se mostrando ousadamente pra você pra classe (não sei se ele ja veio do mesmo jeito em outros dias)
2. os outros dois que vieram conversar logo em seguida.

pressinto que tem espaço pra uma boa conversa ou mesmo debate em sala de aula...
ou não?

beijo enorme.

Luciana Nepomuceno disse...

Beth, na verdade, nós já tivemos conversas ao longo do semestre. Minha disciplina é Psicologia, Organizações e Trabalho, então esses tópicos entram transversalmente. Ontem foi o último dia de aula.

Nem sei se ele veio pra mostrar pra mim. Eu senti que sim, mas, né, a gente às vezes se engana. Mas se não foi, pior ainda, é do cotidiano dele :(

Marcelo Paes disse...

Ah, difícil dar sugestões, mas como já disseram aqui, acho que outras pessoas virem falar com vc antes e depois já te dão esperança que o debate se faz mesmo sem ser direto. As pessoas se sentem atingidas e sentiram que atingiam você também. Acima de tudo, há esperança. :-)

Luciana Nepomuceno disse...

ah, sim, Marcelo, minha abordagem foi ver o copo meio vazio, mas tinha a parte boa, claro. Hoje, mais tranquila, senti melhor isso, do cuidado e vinculação que os outros tiveram.

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