terça-feira, 31 de maio de 2016

07 Anos

(por causa da Camila Pavanellli e suas sacadas geniais)

Minha memória é bem ruinzinha, então eu vejo as pessoas listando os bens que tinham aos sete anos e eu não faço a mais vaga ideia do que eu tinha. Sei o que eu não tinha: a sensação de que as coisas que eu tinha eram bens meus.

Eu vestia roupas. Eu usava escovas de cabelo, de dentes, fivelas. Eu comia biscoitos no lanche. Eu brincava de elástico. Eu lia livros - alguns eu só tentava, claro. Em algum momento da infância, eu andava de bicicleta (não sei se aos sete anos).

As coisas eram coisas. A gente usava as coisas. Mas ter era uma sensação ligada à coletividade. Eram coisas da casa. Talvez a única diferença sobre isso fosse a Gilda, uma boneca grande (menor que a amiguinha), meio feiosa, de bochechas rosadas e que podiam ser apertadas porque o rosto era de um plástico mole. Ela ficava sobre a minha cama e, eventualmente, eu contava alguma coisa pra ela. Ela, sim, era minha. Mas não minha coisa, não minha boneca. Era minha amiga.

Acho que um aspecto que determinou essa minha relação com as coisas do meu mundo infantil foi a quantidade (e proximidade) de irmãs e, também, muita frequência de primas da mesma idade. Eu e minhas irmãs dormíamos no mesmo quarto. Os brinquedos e livros e tudo ficavam nas prateleiras em comum. A bicicleta, por exemplo, era única, era nossa. E quando as primas vinham, então, não fazia sentido marcar limite de propriedade, a gente queria mais era que todo mundo brincasse.

Na foto abaixo, por exemplo: todas nós com as "minhas roupas" de balé. Teve uma apresentação na escola, depois chegamos em casa e vestimos as roupas que eu tinha usado e nos divertimos um monte (eu acho que eu adorava tirar fotografia, cara, eu era muito posista)



Além disso cresci em uma vila, a gente brincava na rua e a rua é de ninguém e de todo mundo. A vizinha tinha fantasia de mulher maravilha. Uma usava o cinto, outra a blusa e outra o short. Revezando. De quem era a fantasia importava bem pouco pra nós (devia importar pra quem lavava, né, depois de um monte de horas correndo e suando).

Não lembro o dia, mas lembro a sensação de quando fui visita de fim de semana e descobri que a mãe da pessoa, ao fazer as compras, distribuía os pacotes de biscoito entre os filhos e cada um gerenciava os seus. Para sempre impresso em mim aquele momento em que a pessoa abre o guarda-roupa e tem biscoito recheado lá. Foi um choque.

Isso mudou na adolescência. Não muito, mas mudou. Em relação a algumas coisas. Livros, nomeadamente. Continuam sendo compartilhados, mas gosto de sabê-los meus. De dizê-los meus. E na idade adulta, morando sozinha, sei que tenho coisas. Contas, em sua maioria. 

De resto, as coisas, menos que ter, uso. Acho que isso resume: eu uso as coisas. Inclusive as da minha irmã, que mora ao lado. Mas, olha só, comprei minha própria máquina de lavar roupa. E já ficou acertado que os lençóis de lá agora podem ser lavados aqui.


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De maneira engraçada, esse sentimento de coletividade não se estendia - nem se estende - a pessoas. A mãe é minha. O pai é meu. A irmã, a outra, o irmão. Tudo meu. Minha avó, meu avô. Mesmo quando estamos falando uma irmã com outra, eu digo: minha mãe pediu pra tu telefonar pra ela. E minha irmã pode dizer: olha, falei com meu pai hoje e ele tá precisando falar contigo.

Tenho uma amiga gaúcha que sempre ri da forma como usamos o possessivo na primeira pessoa do singular mesmo falando de pessoas que tem o mesmo papel social nas nossas vidas. 

Mesmo antes de entender teoricamente, eu sentia que fazia sentido. A mãe que é minha, é única. Não é quem a Rita Maria é. Não é quem a Rita Maria é para os outros filhos. Não é quem a Rita Maria se entende como mãe. Não é nem mesmo quem a Rita Maria se entende como mãe minha. A "minha mãe" é em mim. Como eu aprendi que ela é em mim. Como eu a sinto. Específica. 

Tem uma porção de amigos meus que se tornaram amigos deles. E amigos deles que se tornaram meus (oi, Lemuel). Mas o meu Lemuel não é o mesmo da Liana. Apesar das duas verificarem se é jeans, claro.


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Resumidamente eu posso dizer que, com sete anos, eu tinha uma pereba perene no joelho.

8 comentários:

Rita disse...

Ai, você. Minha Lu. <3

Rita disse...

Ai, você. Minha Lu. <3

Cláudio Luiz disse...

"eu uso as coisas. Inclusive as da minha irmã, que mora ao lado." ficou faltando um MUITO aí na parte da irmã.
sou testemunha. faz inclusive ela de entregador.
e isso de primeira pessoa, sempre. é meu pai e minha mãe. posso até tirar a posse e falar só - o pai quer falar com vc - falando com meu irmão, igual aos seus amigos compartilhados, o meu pai não é o mesmo pai dele.
aos 7 nem sei se tinha alguma coisa tb.

Renata disse...

Acho que o que mais gostei nesse post foi essa reflexão final. De que as pessoas podem até ser "nossas", mas a relação que construímos faz com que elas sejam singulares, únicas. Acho que é tão isso. E amo tanto essa singularidade.

Marissa Rangel-Biddle disse...

Borbs, eu coloquei uma foto para enfeitar meu post de hoje. Fiquei na duvida -- serah que coloco um disclaimer explicando que nao sou apegada? Eu soh comprei e mantenho esses livros por causa de um amor que se apegou mim. Preciso explicar para o povo que nao sou apegada!

Renata Lins disse...

Então. Eu falei das minhas coisas. De coisas que eram minhas. A bicicleta, por exemplo, era minha. Mas aprendi a andar na bicicleta do meu primo Paulinho (<3), dois anos mais velho que eu. E no Recife, na casa de tia Zélia onde eu ficava, era assim que nem na tua: eles eram quatro (depois cinco, mas isso foi bem depois :) ), tudo era meio coletivo, e eu amava. Quando a gente ia pra casa de tia Sônia, um casão que ela enchia com os primos dos filhos, a gente usava muita coisa de Cecília. A gente ia pros bailes pré-carnavalescos nos clubes e pegava os vestidos de Cecília. Enfim, Recife era o coletivo: era onde eu me entendia de verdade. E depois, na adolescência, eu fazia isso - usava. Roupas da mãe, do pai, da irmã, do irmão. Tudo cabia em mim.
(choquei com os biscoitos distribuídos).

Rafael Fabro disse...

Essa brincadeira dos sete anos que deslizou o significante do patrimônio por aí com toda a criatividade tá uma delícia, Lu. Seu texto, idem. Memórias entrelaçadas numa bricolage das boas! Por estes prados, é Almodóvar na veia também, "tudo sobre minha mãe". Afinal, "a mãe é em mim". Bingo! E costurar tudo com a aliteração de salivar "pereba perene" foi uma gostosura. Como disse a Rita cá em cima, obrigado, minha Lu!

BethS disse...

eu gostei dessa brincadeira dos 7 anos por causa disso, cada um foi lá fundo e acabou trazendo lembranças que nem lembrava mais. gosto de ler essas imagens de muitas crianças, de trocas, de experiencias coletivas. porque a minha memoria é de estar sempre sozinha, tinha várias irmãs, mas a gente foi meio separada depois da morte da minha mãe. já te falei sobre isso.
mas é muito bom ler os relatos, ver como somos tão diferentes...
essa diferença é a nossa riqueza, né?
<3

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