quinta-feira, 28 de abril de 2016

Sapatinhos

Eu faço perguntas, mas queria era estar falando ternuras. Queria mesmo era deitar no seu abraço e sussurrar bobagens carinhosas. Queria dizer, como quem lança sementes em terreno fértil: amor, desejo, ontem, sempre, quando, depois, agora, querido. Queria era tocar. Estender a mão, leve, fortuita e delicadamente encontrar tua pele. E deslizar, como quem reconhece território para nele fazer morada. Queria não fazer planos, descansando o amor na certeza de um agora. Queria dividir o travesseiro. Encaixar minha coxa na tua. Queria era cuidar de miudezas: pão, cebola, café, alimentar o corpo, saciar o desejo. Queria era facilitar tua vida. Cantar como o Chico que ajeitava o meu caminho para encostar no seu. Queria era passar estações ao teu lado, reclamar do frio, reclamar do calor, celebrar as mudanças. Queria ver a lua. As luas. Minguante a cheia, deixar a vida fazer seu ritmo em uma cama compartilhada. Queria era dividir sonhos. Segurar na mão. Queria ajudar no trabalho. Segurar ferramenta. Esquecer do tempo na beira do rio vendo o sol se esconder lentamente. Queria era mergulhar no mar e lamber o sal no teu pescoço. Entrelaçar dedos. Rir junto, olho brilhando. Queria era te ver dormindo no meu ombro. Queria era dormir, entregue, no teu colo. Queria abraçar com fome, desabotoar camisa, acordar a tua vontade. Queria ser repouso, depois. Alegria, durante. Queria diminuir distâncias. Fazer pontes. Não posso. Faço perguntas. 



Sou ateia, mas escrevo cartas como quem imita a parábola do semeador. 

Eu sou uma pessoa de toque e letra. Preciso de palavras. Conversas que ponham festa no corpo. E preciso do corpo em outro corpo. Encontros. Quandos. Folguedos. Que seja leve. Que seja fácil. Que seja claro. Mantras. Farol. Não sei dançar tão devagar, como cantava a Marina.

Esfrego as mãos para aquecer a alma. Não funciona bem. Lembro da Merteuil (você nunca leu Ligações Perigosas? devia, ah, devia). Como faz falta uma investida segura e bem feita. Como ela, dou de bom grado o que pensariam tomar. Mas é preciso um certo talento que já não encontro. Paciência.


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