quarta-feira, 20 de abril de 2016

Bela, Recatada e do Lar

Uma mulher deve poder ser o que ela quiser ser, poder fazer o que ela quiser fazer, poder agir como ela quiser agir, deve poder falar, cruzar as pernas, colocar roupa, gargalhar, como ela decidir  – no limite da civilidade e do convívio humano (essa parte eu acrescento por motivos de: pessoas esquecendo a humanidade e falando em tortura e afins).

Uma mulher deve poder fazer suas escolhas. Inclusive escolhas das quais discordamos. Inclusive escolhas que a exponham, fragilizem estruturalmente, a coloquem em risco ou comprometam seu próprio poder de escolha. E não, não é preciso para respeitar a decisão de alguma mulher que essa decisão tenha sido tomada em um momento de intensa sabedoria, reflexão, maturidade e esclarecimento intelectual e/ou feminista. Não é preciso que a pessoa “saiba o que está fazendo” onde este “saiba” significa que ela interpreta a realidade do mesmo jeito de quem enuncia essa autorização e age conforme essa pessoa espera. Para eu respeitar a decisão e a escolha de uma mulher basta que ela tenha decidido e escolhido.

Esses dias a revista inominável e asquerosa (sim, eu adoro adjetivos) publicou uma matéria com a Marcela Temer. Mentira minha, ela publicou uma matéria com a “esposa do Michel Temer”. Começa daí o problema. Uma matéria com uma mulher onde ela não importa, o que importa é onde ela se localiza em relação a um homem. O queimporta é seu papel em função de. Papel este que é imputado como desejável e qualificado como atraente: uma mulher “bela, recatada e do lar”. Ao longo da ~matéria ~ outros valores se agregam: juventude, virgindade suposta, etc. Não há nenhum problema e não deveria ser questão – a não ser de foro íntimo - uma mulher escolher (ou nem isso, por situações adversas ter que em algum momento) esse lugar de cuidadora da família, de não trabalhar com remuneração, etc. O que é motivo de indignação é constituir essa narrativa como único lugar desejável para as mulheres. E, principalmente, o subtexto em que se compara essa mulher jovem, dócil, discreta, que tem como espaço privilegiado o espaço privado, com outra mulher velha, ativa, aguerrida, que ocupa um espaço público e dele não abre mão.

Amatéria provocou reação. Que bom que provocou. Muitas mulheres, eu inclusive, divulgamos fotos zoando a descrição, apontando outros espaços, formas e contextos de existirmos além da descrição “bela, recatada e do lar”. Reivindicamos as ruas. Os bares. Reivindicamos a liberdade, a luxúria, a falta de decoro. Reivindicamos o mundo do trabalho, do consumo, o espaço público. Confrontamos o discurso que enaltece o modelo “mulher do Temer”. Confrontamos o discurso que (a) descreve sem (a) ouvir.

Mas. Desde o começo me deu aquela inquietação. Vivemos em uma sociedade escrota e misógina. Da crítica ao discurso sobre uma mulher para a crítica a esta mulher é um pulo. Fácil de ser dado. Tão fácil que foi, aqui e ali. Com maior ou menor ênfase. Interesseira. Dondoca. Vítima de relacionamento abusivo. Outras narrativas sobre. Tão tuteladoras quanto.

A Marcela não é a figura do retrocesso feminista. A Marcela não é o problema. As escolhas da Marcela não são a questão. Cada vez que se personaliza essa conversa estamos sendo iguais à Veja. Escrotas. Escrotos.

A questão é a disputa do espaço público. Da voz. Do respeito incondicional à nossa humanidade. Sem mas. Sem ressalvas. Sem condições de autorização para nossa existência.

A questão é que ainda vivemos na estrutura dicotômica santa e vadia. Eu vivo. Publiquei as fotos dos bares, dos risos, da praia, com a família. Em todos estes espaços, eu, inteira. Aí a amiga cutucou, indiretamente, porque o contraponto ao do lar era apenas o bar e não o trabalho, a política, os espaços de conhecimento e poder? E, né. Sim. Porque? Fiquei pensando em mim mesma e na minha trajetória. No terninho bem comportado na defesa da dissertação. No cabelo escovado na entrevista na prova didática do concurso público. Em todas as roupas discretas nas palestras, congressos, eventos. E no lento abrir o peito, mostrar os dentes. No decote na qualificação da tese. No batom vermelho na última palestra. Na gargalhada solta no último treinamento de professores. Não foi um único fator, claro, que me conduziu a esse conforto comigo mesma. Tem a idade. Tem os aprendizados. Tem a falta de grana pra comprar roupas de tipos diferentes do meu pra usar só em ocasião especial. E tem a segurança do meu emprego.

No contraponto do bela, recatada e do lar, trazemos, eu trago, o fora do padrão, despudorada e da rua. Mulher da Vida. Por isso, a foto para o #BelaRecatadaeDoLar que ilustra esse post tem isso: batom vermelho, decote, fala biscate, microfone, platéia, diálogo, conhecimento. Poder. Espaço público, eu quero, eu luto, eu ocupo. 


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