sexta-feira, 25 de março de 2016

Quase Uma Receita

Eu preferiria ter tudo separado. Não tudo, tudo. As saudades. Pode ser impressão, mas fica mais dolorido quando não se sabe ao certo se o vazio no peito é de figura ou fundo, quando as estradas parecem erradas mas a gente não sabe se o equívoco é pelo que se vê da janela ou o destino pra onde elas levam. É mais difícil acordar sem olheiras quando você não sabe se o problema é onde a cama está ou quem não está nela. As saudades. De uma rua ou de descer a rua de mãos dadas. De um bar ou do barulho da conversa dos amigos ao redor da mesa. Do clima ou de ficar enroscada no sofá com alguém. De uma cozinha ou das pessoas queridas entrando e saindo e rindo e garrafas se empilhando, vazias, na pia.
Fica mais difícil esse desbotar de alguém no desejo quando ainda se anseia por tanto que ficou misturado, quando o sabor ausente na ponta da língua se confunde entre pele e azeite. O fato é que hoje eu queria comer bacalhau. Não do jeito que você já fez. Ou que fizemos. Não aquele demolhado na cozinha de casa, levantando no meio da noite pra trocar a água. Não o que fica guardado na varanda. Não aos nacos, com grão. Não as postas altas, no forno. Não este. Outro. Que tenha uma saudade só dele. Que tenha sabor de uma solidão convictamente construída. Que saiba a corredores vazios, compartimentos grandes, coloridos, bem iluminados e desabitados. Um bacalhau que não peça mais ninguém à mesa, que não demande mais que minha boca, minha fome, meu oco.
Bacalhau a brás. Tem um filme bobinho, uma dessas românticas que esquecemos rápido, mas com uma frase que se tornou minha (tanto que já nem sei se ela é assim mesmo): meu pai sempre dizia que a vida nunca é como planejamos… ele estava falando da minha, claro. Não, não tem bacalhau. Tem ovo, tem cebola, tem batatinha e tem tempo a mais na internet, tentando esquecer a minha incapacidade de fazer o que precisa ser feito. E tem uma receita de Atum a brás. Não o atum fresco, saboroso, braseado, servido no Mercado da Ribeira. O atum possível, daqueles que estão em lata em praticamente qualquer prateleira de bodega. E aqui em casa. Primeiro, as batatas. Ao vencedor, escreveu o Machado, mas não parecem vir a ter gosto de vitória, guardadas em pequenos sacos plásticos na gaveta da geladeira. Paciência. Descasca, cozinha até perder o gosto de cru e termina de assar no forno. Ou estando com pressa, como eu hoje - embora saiba que não vou usar bem o tempo que economizo - salteia com manteiga e ervas na frigideira mesmo. Reserva. Na mesma frigideira, azeite e umas cebolas cortadas muito miudinhas. Essa é a hora pra aproveitar pra chorar. Não que sejam necessárias desculpas. Mas assim a gente evita o desperdício ou a redundância. Alho. Tomate torturado – digo, triturado. Deixa tudo murchar, coloca o atum escorrido, tempera com sal e pimentinha moída. Deixa rapidinho no fogo baixo, uns três minutos, acho. Esqueci de dizer, era pra bater os ovos. Que se mistura com o atum, bem agora, depois dos três minutos. Fica meio marmotoso. Pode ir, nesse momento, facinho praquela página de Comida Feia. Mas a gente engole uns sapos na vida, vai dispensar comida gostosinha só porque não é elegante? Euzinha é que não.  Em fogo baixo, mexe, mexe mais uns dois minutinhos, só pro ovo perder o gosto de cru e se misturar bem com o atum. Desliga o fogo, coloca cheiro verde bem picadinho e derrama tudo no prato. Traz as batatas pra festa. Percebe que a festa não era ali, você anotou o endereço errado, chegou depois, perdeu o bonde. Aproveita pra imaginar a si mesma em um meneio de ombros, sempre quis ser essa pessoa que é indiferente o bastante. E pensa outra vez: seria melhor doer separado.  


Eu era feliz por descuido. Agora sou por política. E escolha. Mas. Tem um mas. Ou mais de um. Um dia e outro, segue o calendário do desassossego, a gente quase se esquece que já foi riso. Eu já estive no jardim, beijando o moço no cavalo. E agora sou eu do lado errado da janela.
a verdade é que a gente não se incomoda com as mesmas coisas. sem abrigo, lá e cá e mesmo acolá (não, não sou das dicotomias), só me resta a solidão. que aprecio, com uma xícara, um livro, callas e o céu recortado pelas persianas.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...