quinta-feira, 10 de março de 2016

Palavras no Divã


                      Eu não sei bem como começou tudo isto em que agora esbarro, imposta a necessidade de decidir: prossigo ou não. Primeiro a exigência, feita em tom de brincadeira, o mais falho disfarce da verdade: deve ser um homem. E que homem, eu saberia depois. Primeiro a voz. Por muito tempo telefonei para desmarcar, confirmar, remarcar encontros, principalmente para ouvir, na secretária eletrônica, a voz, aparentemente destinada a ninguém, mas que eu sabia, tinha quase certeza, aqueles ditos eram para mim. Eu era engraçada. No princípio, era o desnudamento. Palavra por palavra eu tirava os véus que encobriam os desejos de outros que eu realizava. Ah, o mundo era culpado por minhas dores e responsável pela minha felicidade. E ele era deste mundo ou não? Isto eu desconhecia. Mas torcia para que fosse, pois assim sendo, eu o encantaria. Sempre fui boa em trazer as pessoas para dentro da minha bolha particular. 
                         Fui percorrendo o caminho de elaborar hipóteses para minhas (in)felicidades. Nasci na época errada. Sou especial demais. Sou especial de menos. Minha mãe me preferiu sempre. Meu pai prefere minha irmã. Minha capacidade não tem espaço nesta sociedade assim estruturada. Uma rede de belas estórias pretendia cobrir a ferida que expus logo no primeiro dia: eu não sei o que me falta. Ou porque dói tanto que falte. Da imaginação às imagens. Do folclore à memória. Da verdade ao saber. Do amor ao desejo. Desejo de saber. Verdade quase toda. É disto que se trata, de um saber construído pelo que não sei, pelo que surpreende, pelo que se esgueira entre as palavras corretamente engendradas. De um canto escuro salta a palavra bailarina, que me encanta e aprisiona os olhos, esta palavra que nada significa, mas tudo diz no seu vai e vem. Ah, ela retorna. Às vezes disfarçada de ser outra, mas é exatamente aí que ela se entrega. Ou melhor, é exatamente aqui que ela me entrega. Na bandeja, esta dúvida que obrigava o ciclo de sedução que sempre acabava na minha partida, desiludida por eles nunca cumprirem o que o amor prometia: um completando o outro. O que eu quero afinal? Eu perguntava e ele nada respondia, ou se respondia eu não entendia, sei lá, só sei que esqueci como se diz mulher em francês e fez sentido, eu sou homem ou mulher? Sou mulher. 
                    Sou? E porque eu falo como meu pai? Esqueço às vezes que mulher é meio homem e o que não é, é o que eu tentava dizer a ele. Mas o silêncio ria e o meu corpo tremia. Assim é. Não sou mulher para ele, ele não é homem para mim. Embora eu o tenha escolhido justamente por sê-lo. É uma das contradições do processo. Outras surgiriam. Eu amava outro e, mesmo assim, ele ainda me servia. Servia de buraco onde eu jogava as palavras que retornavam como fantasmas habitantes dos sonhos que a noite me oferecia. De buraco a depósito de lixo foi um pulo. Um salto que meu discurso deu. Meia volta volver, vou ver o que tem na palavra que me faz desejar isto, ouvi-la no meio do discurso. Esbarrar na letra. A primeira letra escrita no meu corpo, a estória do meu desejo. Meu nome: a que alucina. No corpo as palavras dançam, é assim que eu quero. Adeus, eu, é assim que quero. Quem me toma de assalto já não me assusta nem encanta. Vem.

Se é na psicanálise, tal  como presentificada na letra freudiana, que pretendo chegar, e daí arguir o tema deste nosso fórum, é coerente que sustente as palavras que ousei pronunciar, em palavras dele: "a discrição é incompatível com a boa exposição de uma análise; é preciso ser inescrupuloso, expor-se, entregar-se como pasto, trair-se, portar-se como um artista que compra tintas com o dinheiro das despesas da casa e queima seus móveis para aquecer o modelo" (Freud, carta de 05 de junho de 1910 ao pastor Pfister).

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...