sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Uma Paixão Chamada Mangueira

Paixão é um troço inexplicável. Tá na lista daqueles impossíveis de dizer (tudo) que eu vez em quando menciono. Pode-se passar horas e dias e páginas falando ou escrevendo e o máximo que se consegue é um pálido arremedo da intensidade com que ela nos assalta. Sim, há boas poesias, Camões e Vinícius bem a diziam, mas dizer bem ainda não é dizer tudo.

Enfim. Sou apaixonada por Escolas de Samba e, de forma completa, arrebatada e entregue, sou apaixonada pela Mangueira. O que, claro, é bem esquisito já que nunca participei de um ensaio, de um desfile, de nada. Nem cheguei perto. Nunca foi necessário. Não lembro, mas imagino, eu-menina, o verde e rosa na passarela e o coração perdido. Ano após ano, não importa onde eu esteja ou o que esteja fazendo, eu paro e assisto o desfile da Mangueira e canto e choro e me encanto. Há anos em que outras escolas vêm com melhores carros, fantasias mais bem acabadas, enredos melhor desenvolvidos, sambas mais bonitos. Eu reconheço, admiro, aplaudo. Não importa. Chega a Mangueira e eu deixo de pensar.

O que mais gosto no Mangueira é que ela parece nunca esquecer que o Carnaval é uma festa. Seja batendo o pé na tradição e mantendo seu surdo de primeira, seja fazendo uma parada inovadora e enlouquecedora como a do ano passado. Do sempre ao depois, a Mangueira faz farra. Enfia o pé na jaca da competitividade muitas vezes e desperdiça a chance de ser campeã, é verdade. Com isso perde dinheiro, os integrantes lamentam, a diretoria ouve críticas. Ano após ano, na hora de optar pelo seguro ou pela festa, lá está a Mangueira outra vez com o coração na mão.



Não é a única Escola que tem chão, comunidade, magia. Portela e Vila, por exemplo, tem tudo isso a rodo. Mas a Mangueira, tem, pra mim, aquele quê que nos tira o sono, nos faz arfar, arrepia a pele...

Esse ano o desfile da Mangueira fez tudo de novo em mim. Mas fez mais. Fez gente esquecer sua escola de coração, fez gente que nunca tinha visto desfile ver e se arrebatar, fez a passarela do samba ser, para além de espaço de festa, espaço de celebração.




Cantamos Bethania. E mais. Cantamos a fé. A devoção de rua. O prazer do simples. A beleza de ser povo. E brasileiro. Sambamos a água ribeirinha, os sertões ressequidos e a faca amolada. O carnaval passava na Sapucaí desde a noite anterior e eu dizia: sinto falta de pele. E a Comissão de Frente da Mangueira veio com as guerreiras de Oyá, seios de fora, coragem e sensualidade tudo junto e misturado.Celebramos o corpo, foi isso. O corpo não necessariamente sexualizado. O corpo que carrega a lata d’água na cabeça. O corpo que gargalha. O corpo que luta. O corpo que cozinha, que faz oferenda, o corpo que requebra. Cantamos e sambamos a religiosidade que não é amarra, não é excludente, não é sectária.

Enquanto a escola ia passando a arquibancada ia ficando arrabatada. E eu sei sem precisar perguntar  que cada folião que sambou em verde e rosa dirá que valeu a pena. Porque foi mágico. É mágico.



Tão mágico que um moço que tem "da Vila" no nome fez um dos sambinhas gostosos sobre a Mangueira dizendo assim: 
  

Há quem diga que outras escolas foram melhores em algum quesito técnico e eu digo: sim, sim, e daí? Vão dizer títulos e números e sei que lá e eu digo: sim e daí? Vão dizer competitividade e marcação no meio do campo e sei que lá e eu digo: ainda prefiro jogar bonito, ops, é samba, não futebol, mas o lance é esse: eu prefiro jogar bonito. 

É isso, paixão é um negócio difícil de explicar, mas se eu tivesse que nomear, um dia, olhos borrados, respiração incerta, pele morna, coração em batuque, diria assim, entre suspiros e desejos: Mangueira. Tem gente que diz: é só Carnaval. Digo eu: Mangueira é mais que a vida. 

Pra quem ainda prefere títulos a beleza e magia, Mangueira é campeã do Estandarte de Ouro, 2016. É campeã pela apuração da Liga das Escolas de Samba, também. Foi escolhida como melhor Escola, o melhor desfile do ano. E foi. 

2 comentários:

Juliana disse...

Escola de samba é um troço que me enlouquece. Nunca fui em quadra nem em desfile técnico, mal sei articular os pés, mas aquela paixão das pessoas me comove, me contagia.

Nunca fui Mangueira e acho que ainda não sou, apesar de tudo. É o Salgueiro que me arrebata. Mas não consigo dimensionar o que senti todas as vezes em que fui presenteada com a possibilidade de desfilará na Mangueira. Não tem coisa mais bonita que aquelas pessoas apaixonadas.

Eu desfilei no último setor e não senti o público tão empolgado, mas acho que as pessoas já estavam cansadas demais.

Anônimo disse...





Prezados Senhores(as),

Solicito; com toda educação, o envio de um e-mail específico ao qual eu possa entrar em contato alguns meses a frente.

Obrigado pela atenção dispensada à esta mensagem.

Fernando Tavares
ww.tavarestraducoes.com.br

cadmet@bol.com.br

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