quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Pegando No Tranco em 2016

Tem toda essa vida que eu não vou viver e que, em certas noites, me assombra como uma fantasma herdado por acaso. Toda essa vida que eu não vou viver, que eu escolhi não viver me dói certas noites como se fosse a única vida possível de ser vivida. Toda essa vida que eu não vou viver e que, ainda assim, é minha, sou eu. Que não existe mas em certas noites me lembra o impossível que é essa vida minha que é. 

Mas a vida que é tem respiros: como o desfile da Estação Primeira de Mangueira. Se perguntarem, a caixa de primeiros socorros é aquela em verde e rosa.

E tem esse blog, Lisboa de antigamente. Que bate no peito como uma saudade, mas que não é exatamente, porque nunca estive lá, naquele lugar, quando ele era aquele, e não esse, no qual eu sou. Um amor que podia ter sido. Há um certo espanto, também, de que tenha existido tão a a revelia de mim. Esse espanto me lembra do personagem do livro da Simone de Beauvoir, A Convidada. O que é o mundo, quando não é o meu mundo, quando dele não temos consciência. Como ele escapa. Como ele pode espantar. “É divertido pensar em como são as coisas em nossa ausência [...] É como tentar pensar que estamos mortos. Na verdade nunca o conseguimos; sempre achamos que estamos num canto, vendo tudo”. Tão fascinantemente outro, ele pode ser. E tão dolorosamente outro, algumas vezes. 

Os dias em Lisboa me fizeram pensar no processo de transformar ex-namorado em ficante, amigo em colega, ex-marido em amante (ou ainda, o lugar que chamamos casa em cantinho de passeio). Não é um processo fácil. Ele ainda sabe, claro, exatamente onde beijar o pescoço pra você amolecer. Ainda escuta com atenção. Não esqueceu seus medos, aqueles planos mirabolantes, as perdas irrecuperáveis. Ainda, tanto. O fato de ainda, tanto, engana. Porque ele já não está mais lá, como antes. Não é a quantidade e não é o “o quê”. É o como. A vida dele agora é outra. Diferente não só porque já não é junto da sua, mas ele mesmo diferente, outro. Justamente porque já esteve ao seu lado. Outro, tão parecido com aquele que engana. E, às vezes, se engana. Mas ele viveu um adeus, pra começar. O adeus de vocês. Ele foi. Você foi. Por mais que você recorde todos os pontos turísticos dele e ainda conheça aquele cantinho único que só quem mora na cidade é que descobre, você não sabe os cantinhos outros que abriram enquanto você esteve fora. Não sabe as esquinas e não sabe quem as trilhou. E isso não é ruim em si mesmo. Mas é preciso lembrar a diferença e dele, eventualmente, fazer proveito.



Mais Fred Caju, aqui



Agora que 2016 vai pegar no tranco, formalizado os planos. Esse ano eu vou:

comprar um pilão. e uma colher de pau. e um filtro de barro.
defender uma tese.
comer um risoto.
chorar. gargalhar.
dançar na varanda.
me jogar.
duvidar.
falar na hora errada.
tomar café. e cerveja. e vinho. talvez, água.
perder o trem da História.
enfiar o pé na jaca.
cortar um dobrado.
dormir no ponto.


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