terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Oscar 2016 - Brooklyn




Eu vi Brooklyn e gostei tanto. Diria, se me perguntassem de supetão, que é um filme sobre nada. Um pedaço de tempo. De vida. Tem o que a vida da gente tem. Ou ainda, é um filme sobre gente. Sobre as coisinhas miúdas que se tornam imensas e as decisões enormes que se tornam banais. Vida e morte e amor e encontro e separação e escolha e vida e tal.

Era uma vez, uma única vez porque cada vida é singular, essa moça. A Irlanda é sua geografia explícita, mas eu a localizaria mais no fim da adolescência/juventude. Esse é seu território inóspito. Não há horizonte pra ela, nada a esperar: um trabalho insignificante, nenhum relacionamento amoroso, rotina, rotina, rotina. Mas lhe oferecem um caminho: América. Ou: idade adulta.

Um parentese importante: gosto da gentileza das pessoas no filme. É um filme de pessoas que se importam. Que se ajudam. Sim, ela é valente e vai, ela sofre sua solidão, mas ela tem, em seu caminho, mãos. O padre que viabiliza a viagem. A moça vivida na cabine do navio. As frívolas companheiras de pensão. A gerente na loja. O moço que vai todos os dias buscá-la na aula. E a irmã, principalmente a irmã, que se preocupou, que organizou a viagem, que acarinhou, confortou, comprou as roupas, arrumou a mala. Isso me enterneceu. Porque a gente vive assim. Eu vivo assim. Dos bons encontros. Viver é muito perigoso, disse o Rosa, e ele sabia. Mas é também belo nisso de estar com.

Voltando, voltando: ela atravessa o mar. E vai trabalhar e estudar e sentir saudades e sair pra dançar e escrever cartas e conhecer um rapaz e trocar beijos e sentir-se mais em casa. Ela vai ser. Vai sendo. E como a vida não se envergonha dos atropelos, também um ou dois. Que são outros horizontes. Porque a vida tem disso. Quando a percorremos, vamos trilhando estradas que não existiam sem nossos passos. E fazemos escolhas e as escolhas nos fazem. Como a hora que ela se levanta e diz seu nome e sobrenome. É uma escolha, mas não é só ela que está decidindo a vida que vai ter. A vida que a tem também a define bem aí.

Não é um filme de grandes emoções, de reviravoltas, de atuações impressionantes e arrebatadoras. É um filme banal. Suave. Como as cores que usaram nos figurinos e na fotografia. Esmaecidas, como se tudo que se vive fosse ser, a seguir, guardado naqueles antigos álbuns de retrato. Vez ou outra o forte verde, Irlanda, saudade silenciosa, incrustada, delimitadora. Como algo que nos molda e define, mesmo que a gente não dê conta. A luz (e cinema é, em grande parte, luz, sabia Fellini, sabiam os diretores de noir, intuo eu) é usada de forma muito, muito inteligente. (depois eu descobri este post MARAVILHOSO sobre a parte técnica, o uso da luz e das cores, morri de amor).

Gosto que o filme tem romance, mas ele é parte da vida. Não A Vida. Nem irrelevante. Constituinte. Gosto como a Geografia é a das relações. Gosto que a história de uma comunidade que emigrou esteja lá, mas que seja contada em uma perspectiva singular. Gosto que ela se sinta ora pequena demais e ora imensa demais. Gosto que ela extrapole, que ela fique de pé, que ela chore contida, que ela abrace.  

Provavelmente gostei assim do filme porque me identifiquei um tanto. Sempre dependi da delicadeza – e não só de estranhos. Sempre senti que a vida me levava tanto quanto eu a ela. Já chorei de saudades de uma casa que eu nem sabia direito nomear. E me confortou tanto que ela simplesmente siga vivendo. Sentindo. Incompleta. É um filme que remete à fragilidade, vulnerabilidade e como isso é poderoso. Porque nos permite encaixes, encontros, crescimento. Gosto demais de quando ela usa amarelo. Só por isso: é bonito e bom. Ela vai vivendo e vai descobrindo: não há lugar como a nossa casa não explica tudo. Porque é preciso construir esse refúgio em si mesma.  

3 comentários:

Tina Lopes disse...

Vou assistir hoje! Mas passei aqui pra deixar um link pra lá de polêmico porque sei que vc não vai me apedrejar (mesmo porque só achei curiosíssimo): http://notifam.com/pt/2016/a-garota-dinamarquesa-e-um-disparate-eu-falo-com-conhecimento-de-causa-fui-uma-mulher-transgenero/

Anônimo disse...

Gostei do filme e gostei da crônica. A delicadeza com que o filme conduz a estória é deliciosa. E é lindo como a vida conduz ela, mas ela responde e trilha o seu caminho, fazendo escolhas. Como se dançasse com a vida.

Ana Paula Medeiros disse...

Não tinha lido seu post. Eu não tinha gostado tanto do filme, acho que vi num mau momento, achei parado demais, o banal me incomodou, as hesitações me incomodaram. Mas ler o que você escreveu me faz reavaliar o filme com outros olhos. Isso eu gostei muito: a luz, as cores. Também amo quando ela usa amarelo. E o sobretudo o verde do início. E a transformação sutil que ela vai passando, do início quando era uma garota com um guarda-roupa limitadíssimo, sem maquiagem, quase desengonçada, até a moça que ela se torna depois, mais desenvolta, mais sofisticada. E gostei mesmo das outras moças do pensionato. Enfim, tendo second thoughts em relação ao filme, por sua conta.

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