segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O Oscar do Leo

Não sei o que ando fazendo com o tempo. Ou o que ele tem feito comigo. Especialmente aos domingos. Desde que vim pra cá, antes mesmo de Lisboa, os domingos se tornaram aquela unha que encrava. Tem épocas boas, mas a gente sabe que a qualquer momento volta a doer. A solidão que eu não escolho sai do porão aos domingos. Um consolo vago é passar o dia de camisola.

Mas este domingo teve Oscar e teve Leonardo. Um domingo em que eu podia usar até sapato de bico fino.

E o balanço do Oscar: acertei ator (viva o Leonardo), ator coadjuvante (que saudade de quando o bom do cinema era contar bem uma história, com atuações pensadas e emocionantes), atriz (como resistir à combinação de vulnerabilidade e força da atriz em um papel tão delicado e dolorido?) e atriz coadjuvante (foi até covardia, ela esteve arrebatadora). Não acertei o melhor filme mas fiquei bem contente com o resultado, minha torcida era mesmo mais desejo que qualquer vaga idéia de realidade.

Ganhou o Leo e acabou o meme. E eu fiquei tão feliz. Eu sou dessas que se emociona de repente.  Uma música, uma imagem, um discurso, uma espera que se realiza. A carreira do Leo é daquelas que justificam um amor (o meu, por exemplo) ao cinema. Variada, divertida, intensa, cúmplice.

A interpretação do Leonardo teve, senão tudo, tanto: uma grande entrega física, um comprometimento emocional com o personagem e com o pouco de história que o roteiro tosco propiciou, nuance e profundidade e a construção de um herói incompleto, falho e persistente. 



Uma coisa que me entristece sempre, sempre, nessas cerimônias: quase ninguém resiste a falar da aparência das outras pessoas.

40 dias passou Jesus no deserto, depois disse “já deu”. Devo dizer que também acho que é tempo suficiente. Eu podia tentar fazer uma analogia tosca com o Oscar do Leo. Demora e tudo, um dia as coisas se ajeitam, patatipatatá. Mas eu sei, com a melancolia dos condenados, que na minha situação essa avaliação não muda nada.

Tem um bocado de gente contestando o Oscar do Leo porque “ele já teve atuações melhores”. Olha só, para ganhar o prêmio você não precisa ser melhor do que você mesmo nos anos anteriores. Você só precisa ser melhor do que os demais concorrentes neste ano específico. O alento - e o desafio - é que essa regra não vale pra vida.

Uma verdade sobre mim: por um bocado de tempo eu achava que não gostava tanto assim do Leonardo. Aí um dia parei e comecei a listar os filmes que ele fez e o que ele me fez sentir. E, cara, eu gosto pra caralho do trabalho do Leonardo. 

No discurso de agradecimento ele falou do aquecimento global, da relação homem-natureza e disse: "não tomemos o planeta como certo. eu não tomei esta noite como certa". Tocar a vida como incerta, eis meu mote.


3 comentários:

Rita disse...

Não é? Tudo tão rico. Tô feliz, celebrando talento. Coisa boa.

Rita disse...

Não é? Tudo tão rico. Tô feliz, celebrando talento. Coisa boa.

Anônimo disse...

Prezados Senhores(as),

Solicito; com toda educação, o envio de um e-mail específico ao qual eu possa entrar em contato alguns meses a frente.

Obrigado pela atenção dispensada à esta mensagem.

Fernando Tavares
ww.tavarestraducoes.com.br

cadmet@bol.com.br

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