quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Meme dos Livros #03 - Um livro que é um soco no estômago

O tema de hoje do nosso meme dos livros é: um livro que é um soco no estômago. Eu assistia (e lia) muitos filmes (e livrinhos) de faroeste quando era mais jovem (a quem eu quero enganar? Ainda leio e vejo, sempre que tenho oportunidade). Nessas narrativas tinha um bocado de confronto físico e uma das grandes vedetes, além do murro no queixo, era o soco no estômago. Tiro e queda (desculpe! Rs): um provoca o outro, o outro faz que ignora o um, o um insiste e pêibufo, um soco e começa a confusão. Se o soco for dado pelo herói, no estômago, geralmente o oponente faz um ar surpreso, se curva, fica sem ar e desaba.

É essa a descrição que vou usar como peneira pra escolher o livro que se encaixa na categoria soco no estômago: me deixou sem fôlego, levemente surpresa e com a sensação de que estou despencando.


Tem três livros que, de um jeito ou de outro, tiveram esse efeito quando os li e todos eles são sobre o amor. São eles: Fragmentos de Um Discurso Amoroso de Roland Barthes, A Dor de Marguerite Duras e Antes do Baile Verde, da Lygia Fagundes Telles.

Fragmentos de um discurso amoroso é um livro sobre a solidão que a posição de amante e/ou amado nos arremessa. Os aforismos em alguns momentos funcionam como espelho, em outros sentia como se me puxassem o tapete. É, ainda, um livro sobre a linguagem (e não é o amor também um jeito de nos dizer?), seus limites e sua capacidade de nos inventar quando a utilizamos. É um livro lúdico e em algua análise se distancia e muito da categoria de hoje do meme, mas eu não me deixo enganar, ao virar das páginas há um sobressalto possível.

Eu já tinha lido algumas coisas de Marguerite Duras, mas ler A Dor foi uma revelação: então também se escrevia a ausência. Também se dizia e vivia o vazio. É difícil fazer um resumo desse livro. É uma narrativa da participação da autora na Resistência francesa? É um diário? E a parte ficcional? É a história de uma espera? De uma renúncia? É sobre o amor, mas qual? Por um sonho? Por um homem que foi? Pelo homem que ficou?

Minha autora brasileira é a Clarice Lispector. Também gosto muito da Heloísa Seixas. Mas quando pensei em um livro que me deixou sem fôlego, o que me ocorreu foi Antes do Baile Verde. Talvez porque o tenha lido tão menina. Talvez pelo conto do cemitério. Talvez pela antecipação inerente ao nome do livro. O certo é que aquelas histórias aparentemente tão diferentes me contaram sobre um amor: o amor ao texto. À escolha da palavra certa. Ao ritmo. E ao inesperado. Em cada conto desse livro a autora acolheu, como amante carinhosa, a surpresa, o inusitado. São contos simples. Vislumbramos, apenas, os dramas, os personagens. Relances.



Curiosamente os três são livros de fragmentos. Talvez porque uma escrita mais longa e cadenciada me dê intervalos para respirar, ofereça pequenas tábuas para que eu continue boiando. Em fragmentos, não, o bombardeio é sistemático e há pouco espaço de fuga. Não consigo me esconder de mim, dos meus desejos, do que sinto e, principalmente, do que não sinto.

Esqueci: nas cenas de faroeste, a pessoa que levava o soco no estômago muitas vezes chorava ou “lhe subiam lágrimas aos olhos”. Como eu, ao recordar esses livros, ao recordar de mim com esses livros.


2 comentários:

Renata Lins disse...

E, desses, eu só li "Fragmentos". Ainda assim, fragmentos dos fragmentos, acho. Ficam os dois outros, pra quando a gente se encontrar. Duras e Lygia são amores de tanto tempo. Eu nem li e já vou gostar.

Palavras Vagabundas disse...

Gosto de Lygia, li Antes do Baile Verde mas não guardo muitas lembranças, talvez esteja na hora de reler. Não curto muito a Marguerite Duras, se encontrar por aí A Dor, vou dar atenção. Bjs

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