quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Meme dos Livros #02 - Um Livro que Devia Ser Filme

E começou o nosso desafio dos livros. Ontem falamos dos livros que parecem abraços. Hoje o tema é: um livro que deveria ser um filme. Quando penso em filmes, penso em algumas coisas: diálogos, horizontes e um certo cutucão na alma.

Tem livros que foram filmes e eu curti muito como O Chefão do Puzzo/Coppola e o melhor filme de sempre (provocativa) E o Vento Levou. Esses dois, especificamente, são incrivelmente próximos aos livros de origem, na história que contam, nas falas enunciadas, locais, cenários, etc. Mas não precisa ser exatamente assim, O Senhor do Anéis, por exemplo, é bastante infiel no que se refere à narrativa, mas é uma adaptação que gosto muito porque manteve a “essência” do livro, a densidade dos personagens, essas coisas. Outra adaptação que gosto muito é O Falcão Maltês. Todos esses filmes tem as características que mencionei, falas inesquecíveis, uma fotografia inteligente e, depois de terminarem, deixam lacunas que a gente vai completando com a gente mesmo, nossos entendimentos, nossas angústias, alegrias, etc. Por outro lado tem livros que parecem feitos para virarem filmes, tem tudo e a adaptação é um fracasso. Na minha cabeça imediatamente aparece As Brumas de Avalon. Tudo, tudo errado, da escalação dos atores passando pelo roteiro e, principalmente, a completa desvirtualização da “alma” do texto.

Cinema e literatura são coisas diferentes, linguagens diferentes, mas tem vez que uma está quase pronta pra ser outra. Não sei se esse é o caso dos livros que escolhi. Apesar de ter elencado critérios que acenem pra o que eu considero que torna um livro potencialmente um bom filme, minha seleção se baseia, quase totalmente, no meu desejo. Eu gostaria de ver, na tela, o livro do Verissimo, O Clube dos Anjos. Queria o humor rápido, a estória insólita e, claro, de ver comida, muita, muita comida na tela (gosto de filmes assim, O tempero da vida ou A festa de Babette, por exemplo). Um filme sobre a gula, sobre a vida e sobre a morte. Quero. Outro que me apetecia ver filmado é A Distância Entre Nós, a história de duas mulheres, em Bombaim, na Índia, suas inesperadas afinidades, as distâncias evidentes. É possível filmar o silêncio? As entrelinhas? Bhima e Sera, uma empregada doméstica, uma dona de casa em um casamento violento e anseios e vivências impossíveis de nomear. Sim, seria preciso uma direção afiada para fugir dos clichês e estereótipos, mas que filme incrível poderia ser.




Mas a minha real indicação de hoje é: Desmedida: crónicas do Brasil (sim, com acento agudo). É o livro do Ruy Duarte, nascido português, naturalizado angolano. Poderia dizer que é um livro de viagens. É a história de um rio que viaja sertõs. Imagine aí, uma pessoa seguindo o São Francisco. Mas não uma pessoa qualquer, uma pessoa que descobre o mundo pela língua. A percepção de si, pelo que apreende da viagem. Descobrir um Brasil “que mexe comigo desde que me sei gente” (p 203).

“tentar apreender os seus passados para ver se consigo situar-me nos seus presentes” descobrir o São Francisco, vindo de Angola, “na condição que é a minha e dar-me à ousadia muito pessoal, íntima às vezes, de tentar explicar-me pesando, fundamentando, acrescentando, as minhas percepções do Brasil e do que o Brasil me dá a ver, a ler, a curtir, a abominar do Brasil, do mundo e de mim mesmo.” (p 150).

O livro tem tanto que pode ser filme: paisagens, lendas, microhistórias que desvelam imensas narrativas, há Antônio Conselheiro e Lampião, há vínculos se formando, descobertas, chegadas, partidas, um tom de conversa. Horizontes e intimidade. Tem a busca por uma linguagem, não é qualquer São Francisco, não é qualquer sertão que ele visita, encontra, reinventa. É o sertão de Guimarães Rosa e Euclides da Cunha. Um lugar imaginário e, ao mesmo tempo, absurdamente real.

Eu imagino, desejo um filme que seja assim, essa demedida viagem, que nos incomode na estranheza que provoca, que nos encante com a beleza que evoca, que nos incite com as descobertas e o que fica por dizer. Um grande livro.

Participam do Meme nesse tema: a Silvia Badim, a Rita Paschoalin, a Renata Lins, a Tassia Cobo, a Beth Salgueiro.

E atrasada, mas com o glamour de sempre, a Tina Lopes espanou o pó no Pergunte ao Pixel e indicou seu livro que é um abraço  

PS1. O livro que poderia ser filme, da Tina

3 comentários:

Renata Lins disse...

Um rio.... o São Francisco... e a pessoa passeando pelo rio e contando do Brasil. Me lembrou outro livro com uma temática parecida, "Jorge, Um Brasileiro". Que é um livro de estrada. E de Brasil. Assim também.
Tomara que façam o filme! (a gente tá dando as ideias, né).

Palavras Vagabundas disse...

Postei tarde, rs
Para mim a pior adaptação de um livro foi A Casa dos Espíritos, nada é pior que aquilo. Dá sim para filmar silêncios, mas precisa de um roteirista excepcional e a cumplicidade de um diretor excepcional... não custa sonhar, rs
Não conheço o livro que você indicou nem o autor, procurando em 3..2...1
bjs
Jussara

Luciana Nepomuceno disse...

Jussara, a adaptação da Casa dos Espíritos pelo menos tem atores bons (e, inclusive, deliciosos) nos papéis que potencialmente seriam os certos. Agora imagina a descrição do personagem assim: uma mulher de apar~encia frágil e você taca a Anjélica Houston. Daí não faz nenhum sentido partes mais na frente quando ela "parece majestosa e orgulhosa", ué, ela já é assim, rs.

Renata, livro/filme com viagem e água, que mais podemos querer? Esse, especificamente, tem uma beleza que é o cara ver (de verdade) onde está e, ao mesmo tempo, encontrar Angola, aqui. É mesmo lindo.

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