terça-feira, 6 de outubro de 2015

Meme dos Livros #01 - Um Livro Que é um Abraço

E começou o nosso desafio dos livros. O tema de hoje é: um livro que é um abraço. Um monte de leitura boa foi pintando aqui e ali. A Rita escolheu A sociedade literária e a torta de casca de batata, a Renata Lima falou do “Sinceramente Grávida”, a Jussara foi uma querida e escolheu Contos do Poente, a Sívia Badim se sente abraçada por Cartas a um Jovem Poeta e a Tassia Cobo veio com “A Casa dos Espíritos" e a Marília trouxe o Barthes e seu Diário de Luto

Eu fiquei pensando e pensando como um livro pode ser um abraço. E lembrei os abraços que recebi e os que me receberam. E achei que isso era um bom começo, um livro no qual eu me encaixo. Um abraço é uma conexão. Um vínculo. Um encontro. Um livro que seja isso, que diminua os abismos, que minimize distâncias. Um abraço é simples, não precisa de malabarismos ou muitos processos, a gente abre os braços, encaixa, suspira, se entrega. Simplicidade, check. Um abraço é uma espécie de abrigo, às vezes. Um abraço pode confortar, amparar, consolar e excitar. Um livro que tenha afeto e tenha tesão. Um abraço pode ser chegada, mas também despedida. Um livro que sabe nos deixar partir, sem que dele nos desvencilhemos.

Dois livros me vieram à cabeça e os achei tão óbvios que fiquei até encabulada ante as opções criativas que já passaram pela brincadeira. Paciência, um abraço também me lembra intimidade e esses livros já passaram tanto tempo ao meu lado, já dormiram na minha cama, viajaram comigo, estiveram comigo nas mais variadas situações que não resisto e vou com eles mesmo.




São livros que cumprem o check list aí de cima, que vão do carinho ao desejo, que suspendem diferenças, que são íntimos e calorosos. Que tem sentimento nas páginas. Lembro quando li A Insustentável Leveza do Ser do Kundera e como, na impossibilidade de abraçar os personagens, o apertava contra o peito, contra o rosto. Como dormia segurando sua lombada fazendo mimetismos de Teresa. Esse livro é, pra mim, um abraço. Porque Tomas e Teresa são outros jeitos de dizer meu nome. Porque o pequeno dicionário de palavras incompreendidas é a mais perfeita tradução da impossibilidade dos amantes se compreenderem. Porque o amor pode mesmo nascer de metáforas. Porque eles dormem de mãos dadas. Porque há um morno que fica, quando termino de lê-lo. Porque posso chegar a qualquer hora, em qualquer página, que ele sempre me acolhe. Porque há, também, sensualidade e desejo – e há abraços que.




Bom, eu só leio em português. Sei que ler traduções é ler versões. A obra vista por alguém. Paciência. Perco sempre alguma coisa. Então, trago um abraço a mais. Na versão, escritinho em português, chega o meu Vinícius e seu Para Uma Menina Com Uma Flor. Este livro é suave, terno, morno. É um abraço, daqueles com começam com um roçar no rosto com o torso da mão, é uma mão fazendo cafuné. Textos que se colocam à disposição do cotidiano. Uma linguagem limpa, linda, imprevisível. É simples. E tem aquela crônica da morte do Antônio Maria, que colocou em letras esses abraços impossíveis, os abraços depois do último que não se sabia que era. Abraçar o vazio que alguém deixa em nós. 

Livros aos quais eu me entrego, fecho os olhos e quase escuto o coração batendo. Talvez seja o meu.

Já roubei o bastante? Não. Esse livro atravessou continentes pra chegar em mim. Ele me trouxe, com um olhar generoso sobre pessoas, um país desconhecido. E me trouxe, junto, uma pessoa querida. Nem sei se ele sabe, mas o olho com o qual me viu me ajuda a me ver sempre que não consigo. 






Como a vida é irônica, o livro é bilíngue e nenhuma delas é a língua portuguesa. Ainda assim, tão fácil me refugiar nele.

Leia também: Niara, Abraço também é saudade

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