sábado, 29 de agosto de 2015

Senta que lá vem textão

Teve o texto da Cynthia. Que eu curti em muitos aspectos. Não todos, nossa vivência, local de moradia, tempo de militância, formação (também profissional), cultura regional, um pá de coisas, faz com que tenhamos estilos e concepções um pouco afastadas. Mas gostei do texto. Teve gente que não gostou. Teve gente que gostou mas sentiu falta de outras questões. Teve gente que não gostou e reconhece o valor. Todas as gentes que gostaram ou não gostaram e discutiram com argumentos suas divergências e aproximações, me enriqueceram. Um tanto de outras gentes (não na minha TL) só provou, com seu testemunho e ato, o ponto central do texto.

Eu evito falar de feminismo. Sinto-me incompetente. Não tenho vivência e informação suficiente. Não participei o bastante. Sou novinha nas paradas. Estou ouvindo, lendo, conversando, tentando aprender. Mas de militância não tenho pudores pra falar. Nem de utopias. Projeto de futuro. Visão de mundo. Concepção de humanidade. Afinal estou aqui e tal como a flor de ir embora, agora esse mundo é meu.

Então, sobre militância, não só no feminismo, mas também. Na militância, como na vida, acredito que o fazer nos faz ao mesmo tempo que o fazemos. E nem sou só eu, vai do Leontiev que não é o da Renata à poesia do Vinícius: o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. Acredito que é no fazer, na reflexão do fazer, na operacionalização do fazer que objetividade e subjetividade se determinam e constituem.

Teve um tempo que eu participei de um núcleo de extensão. Era formado por alunos, tocado por alunos, erros e acertos dos alunos. O professor orientador era mais um. Ou menos um, dependendo da época. Eu nem sei como está o Nucom agora. Não importa, não é sobre ele. É sobre mim. Ou sobre essa “eu” construída nesse grupo, nesse processo. E sobre o grupo e processo que ajudei a construir, sendo. Quando eu era extensionista, a gente fazia assim: tinha assembléia toda segunda-feira (com professor, sem professor, não importava). A gente chegava falando do que faltava de material, se abraçava, beijava, mencionava algo das reuniões nas comunidades misturava com queixas de relacionamentos pessoais... aí começava a reunião, sobre as mesmas coisas, no mesmo tom, teoria, prática, práxis, rolava mutirão arrumando a sala e conversas sobre artigos que estávamos lendo e/ou escrevendo, um cutucava o outro, tocava, ria, cantava, debatia. Tinha equipes. Agenda. Muito planejamento participativo e discussão sobre a teoria do planejamento e da participação social. E avaliação a dar com pau. Porque isso e porque aquilo. Não era só fazer, mas porque fazer tal coisa, de abrir um novo campo de extensão a trocar a estante de lugar. A gente viajava junto lendo ou fofocando ou fazendo cartazes. Fazia relatórios, ia pra reitoria pedir verba, fazia festa, fazia roda, dançava ciranda. Tinha dia de debate teórico e esse dia geralmente íamos pra um bar. E lá dávamos exemplos dos campos de trabalho, da vida, falávamos dos sentimentos envolvidos na leitura e na ação e em passar leitura pra ação e ação pra leitura.

E foi assim que aprendi a estar e ser grupo. Não a toa muito do que líamos era Vigotsky, Leontiev, essa galera. E não a toa ler essas gentes tende a empurrar pra construção de determinados tipos de espaços e lutas. Não estou dizendo que é modelo, régua, norma. Estou conversando sobre possibilidades. Sobre a forma como vemos o mundo e pensamos nossa intervenção no mundo. Nosso grupo era de “luta”, pra ficar na pretensa dicotomia. Mas na lista de valores, tava lá: “prazer orgiástico”.

Atualmente eu faço dois coletivos. Não faço parte de. Eu os constituo e eles me constituem. Amo a galera e a gente se escuta, se apoia, se enrosca, se roça, chora e ri junto. Porque a gente faz junto. Acredito nisso. 

Quem me conhece de um tempo sabe como o afeto é importante na minha visão de mundo. Mas falar de sentimento pode ser complexo, né. A gente diz: “sentir” e cada um tem sua concepção do que é. Eu acredito nos sentimentos não como um a-priori, mas como uma construção. Acredito que sonhar junto, trabalhar junto, transformar o mundo nos transforma e transforma os vínculos. Acolhimento faz sentido, pra mim, em termos de militância, nesse contexto.

Estar em grupo pode ser muito “terapêutico”. Como bordar, andar de bicicleta, cozinhar. Mas a não ser em grupos específicos e com a clara compreensão dos processos envolvidos, penso que não deveria ser o objetivo de estar em grupo. É parte, porque é vida. Não é higienizar o processo, racionalizar, etc. É compreender de dinâmica grupal. De identificação. De projeção. De narcisismo das pequenas diferenças. De sacar que tem o implícito. Que, por exemplo, a catarse tem uma dinâmica de retroalimentação num crescendo. Que um grupo cujo objetivo é "apenas ser" precisa diferenciar-se significativamente e isso geralmente é feito na base de escolha de inimigos imaginários (não imaginário no sentido de inventados, mas de imaginário como reflexo, a ilusão, o sempre igual, a imagem e a semelhança do outro sem espaço pra diferença)

Quanto ao resto do texto bom, vou dar (UI) umas pinceladas porque tenho que acabar esse status em algum momento e suspeito que pouca gente vai chegar aqui:

- O Estado não é resposta. Mas deve ser, sempre, questão. Ele é possibilidade de regulação social mas também coerção. Não é suficiente, mas deve ser disputado, acho.

- Não acho que o feminismo é uma luta por direitos porque acho que os feminismos são vários, mas acredito qu o feminismo pautado pela luta dos direitos se aproxima da minha visão de mundo e de mudança, porque acredito que precisamos ir mudando o concreto pra ir mudando o discurso e mudando o discurso pra mudar o concreto e consolidar os direitos. Penso que a militância que se aproxima do que acredito (porque é sempreaproximação, né, da gente com a ideia e das ideias com a gente) é a da transformação da cultura via mudanças no cotidiano e nas instituições e da transformação das instiruições via demanda do cotidiano e da cultura. 

- Penso que a gente tem que ver o momento histórico e como se constituem as subjetividades. Muito tempo atrás uma professora na UFC tava discutindo a mudança de uma sociedade neurótica para uma narcísica e qual o impacto possível disso nas organizações em grupo, lutas coletivas, etc. Talvez seja hora de eu reler esses debates.

- Não devia nem precisar dizer, mas parece que precisa: o sonho não se aparta do hoje. Não é uma coisa ou outra. Questionar um modelo atual não significa desejar abandonar quem está sendo recebida nesse modelo, mas se perguntar se ele pode melhorar. Por exemplo, se precisamos de espaço de acolhimento eficazes e decomprometidos com o machismo e se eles não existem hoje, a conversa precisa incluir a discussão da formação psi, as políticas públicas de assistência social e saúde, a regulamentação da mídia, etc. 

Sobre o que não está no texto, mas o deflagra de alguma forma: não acredito em ideias, pensamentos e utopias que excluem pessoas, qualquer tipo de pessoa, do que vem a seguir no sonho. O mundo que almejo, mais feminista, igualitário, não-racista, não-capacitista, não-transfóbico, não-homofóbico e sem classes, vai ter gente. Vai ter mulher e vai ter homem, ué. A única chance deles não estarem lá é um caminho que não quero seguir. E, vira e mexe, eu volto pro que digo sempre: a estrada, a chegada, o caminhar, eles se definem mutuamente.  


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