terça-feira, 11 de agosto de 2015

Outra

Outros planos, outra ela. A mesma casa, maior pela ausência de sonhos de futuro. Agoras pendurados na parede, em cima do balcão, na xícara única no escorredor de pratos, na bolsa sobre o sofá, na japonesa esquecida nos degraus da escada. Hoje. Outro hoje. Mais um. Alguma rotina, tímida. Banho na piscina bem cedo, mais cedo do que se atreve a confessar em público. Todo dia? Hoje. Em todos os hojes que puderem ser. E o cabelo? Ele tem saudades de outras águas, se não são elas, que sejam quaisquer outras. Todas as outras. Chuveirão instalado pro filho que já não está. Que, aliás, nem caberia mais embaixo. Lava, lava, lava, feito um ratinho, lembrando da infância que nem foi sua. O café passado no pano, uma torrada, uma vida que sabe a nostalgias diversas. A cozinha como se quis: balcão, paneleiro, prateleiras e objetos coloridos. A sainha da pia da cozinha, floral como nos interiores sertanejos em que ela se fez.  Pendurar a toalha no varal. Rabiscar uma bobagem que só ela vai ler na lousa da cozinha. Música para abrir os trabalhos. Artigo, aula, correção dos textos de alunos. Redes sociais nos intervalos. Ainda trabalha na cama, notebook no colo, como se prometeu não mais fazer. Procura justificativas no verde das paredes, no macio da cama, nos quadros divertidos, na conexão de internet injustificadamente mais estável nessa parte da casa, no ventinho que vem da rua. Ri de si mesma e das suas tentativas de engabelar-se ao ter que descer as escadas pra beber água. A sala é um vir a ser. Um dia, um gira-discos. Um tapete. Uma poltrona confortável, claro, colorida, provavelmente floral. Essas coisas, um depois. No hoje, um sofá que vai servindo enquanto espera o resto. Ele é meio bege, meio marrom, meio caramelo (uma cor que mistura isso tudo), coberto com mantas e umas almofadas com estampa que lembram azulejos, outras daquelas que lembram capinhas de tricô que se encontram no sertão em cima de botijões, liquidificadores, etc. No hall compacto na entrada, na parede amarelo caju à esquerda de quem entra, um adesivo de cabideiro com ganchos de verdade pras visitas colocarem bolsas e ela deixar chaves, lenços, chapéu, essas coisas. O resto é indecisão. Na entrada, um tapete com a frase: “num vem não, cumpadi”. Claro que ninguém entende a referência. E é meio assim como a casa vai indo, como ela vai indo: feito piada interna em carro de som. Toda à mostra, mas codificada. Uma casa nua, uma mulher nua. Como o paneleiro, pedra angular da casa: exposto, nítido, visível. Tudo explícito, se exibindo, uma casa biscate, onde é o desnudo que faz a sombra e assombra em mistérios insuspeitos. Foi há um tempo, lembra como uma ausência, que desistiu de abrir as portas e resolveu foi mesmo abrir mão das portas. Que entre. Que entrem. Que a vida seja. 


2 comentários:

Rita disse...

Outra casa muito engraçada, com muito esmero. Bem vinda, flor.

Rita disse...

Outra casa muito engraçada, com muito esmero. Bem vinda, flor.

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