quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Banhos

A história do rio e tal, ninguém se banha nele, ô povo sem higiene, um rio outro, o homem também, ninguém é o mesmo - só o cara que assombra elevadores. Enfim, nunca entendi esse lance do banho tão bem quanto agora. Eu praticamente podia cantar com o ronnie von, a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. Ou ainda: o mesmo trabalho, mesma casa, mesma gente e uma vida tão, mas tão outra. Nem mesmo posso alegar a saudades de um você. Não aqui. Não há sombras nem fantasmas. E, ainda assim, O Leopardo ao contrário. Não é que tudo mudou pra permanecer o mesmo. É que tudo ainda está e, mesmo assim, não é mais. Uma vida tão parecida que quase. Não hierarquizo antes e depois em melhor ou pior. Mas não. Não é. Não vai ser. Deixo o disco na vitrola pra eu pensar que é festa. E cito mal os maus poetas, num rodopio que me leva a cair. No rio, talvez. Não aquele. Outro. Embora.

Temos de morrer de qualquer coisa. Estou aqui apostando em saudade ou torresmo. No por enquanto, mantenho-me no álcool, diz que preserva.

Não tenho certeza se você tá saindo de mim ou caçando um cantinho confortável pra seguir na viagem.

Todo dia em penso que não. Porque eu sei que um bem querer de miudezas não percorre nem sustenta grandes gestos, grandes distâncias, grandes planos. E, ainda assim, permaneço só mais esse dia, essa conversa, essa despedida bobinha. Suspeito que a âncora é esse pequeno sorriso que você põe na minha boca, sem você saber como, sem eu saber porquê. 

Estou meio cansada de ser eco da minha história. Tal como a Clarice, mesmo que por motivos diversos, quero mais é uma verdade inventada.

Tomo banho de lua. Vou pertinho, comprar pão. A senhorinha que me atende tem um sorriso onde aqui e ali o branco do dente se escondeu e se vê a noite nua, cálida, úmida. Pão francês? sim, digo eu e acrescento uma piada interna estúpida. Trocamos palavras sobre qualquer coisa como quem estende a mão. Encontros. Há mais gente na pequena padaria improvisada e eu estico o tempo. De onde espero, vejo a lua, cantarolo Denise Emmer e ela ruboriza como antes dos Lunick-9 a percorrer com olhos ávidos. Obrigada, Vinícius, pelas referências. Interrompemos nossa programação para mais um plantão - outra bobagem. Uma conversa pra dizer que não é uma conversa. Deves querer desligar - de vez em quando conjugo os verbos. Sim, sim, preciso. Mas não desligamos. Até chegar o pequeno sorriso que me acompanha, com os pães e a lua, de volta pra casa. 

De todas as coisas que quase já são de tanto pensar que sim, tem um banho diário na piscina do condomínio. Cedinho, sozinha, o mundo acordando, motores de carro, crianças pra escola, pão pro café, zig zag logo ali e eu boiando. Não é nadar, não é exercício, é fazer de conta que o azul é em mim. 



Faltou o de chuva. Banho que virá.

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