segunda-feira, 8 de junho de 2015

Eu digo: nada. Ou tentando responder o exercício 4

Como eu escrevo? Tentativa 1 
Escrever é uma morte. Em dado instante sou eu plena de palavras, frases, estórias que latejam, que passeiam, que balançam na ponta da língua, num emergir de infinitas possibilidades. Eu sou tudo que poderia pensar, tudo que poderia dizer, tudo que poderia escrever. Todas as estórias não contadas que me habitam me fazem viva. Escrever é uma imposição. Recuso e reluto até que as frases se reúnem num esforço assassino. Uma estória escrita sou eu morta. A primeira palavra registrada em papel e eu me quedo na renúncia de todas as outras que poderiam ter sido. A estória se constrói na exata medida em que esvai vida. Um texto é a negação de toda a obra que não será porque o texto é. Um texto é a negação da vida. Não, o texto é a negação de uma vida. Minha vida. A palavra escrita tem origem desconhecida, cristaliza a idéia que, falada, eu altero, dimensiono, aperfeiçôo. O escrito é irreversível. O que escrevo não sou eu, ou ainda, não sou eu que escrevo, é a escrita que se faz em mim. As palavras se exigem, organizam-se e, por fim, meu fim poderia dizer, o texto está pronto. Ele pronto me fita, num desafio que me emudece. Só ele diz. Diz tudo e não me restam outras palavras. Por um momento nada me resta. O que escrevo é um punhal, belo e perigoso mesmo em mãos inocentes. O que escrevo é um abismo. Eu o fito e sou em vertigens. Um novo texto, suicídio. 



Como eu escrevo? Tentativa 2
Eu escrevo no notebook. Algumas vezes faço rabiscos em folhas soltas, frases que parecem prontas, ideias síntese, o começo de alguma coisa. Raramente, um texto inteiro a mão, mas chegam. Estes quase sempre quando estou em um lugar pouco apropriado, assistindo uma conferência, participando de um curso: o conto que mais gosto do livrinho veio assim, páginas e páginas do meu bloco amarelo cobertas pela letra derramada de quem teme que as palavras fujam antes de as registrarmos. Também me acontece vir parágrafos redondinhos quando não tenho nenhum meio de registro à mão. Então os repito mentalmente, vezes e vezes, vou já arrumando as frases, cortando adjetivos, corrigindo os verbos, deixando aquele texto me impregnar, ser eu, até encontrar uma folha qualquer em que possa ser ele. 

Prefiro escrever à noite ou de manhã bem cedo. Esse escrever que é tentativa de enlevo. Porque das nove às dezesseis, escrevo também, mas é ofício, tese, artigo, resenha. Outro dito. Escrevo sempre no word. Depois copio e colo onde for. Mas preciso da régua, dos limites da página, dos recursos ali em cima alinhados. E preciso de mouse. Sem o mouse mal escrevo atualizações curtas no Facebook.  Há certas materialidades que me definem e à minha escrita. Já li que a gente deve deixar o pensamento dizer tudo e depois fazer reparo. Li, mas não aprendi. Escrevo uma frase, burilo, arrumo, penteio e só quando ela me agrada, passo à seguinte. Depois leio em voz alta, mas sem ser em voz alta mesmo, sabe como é? Dentro da cabeça. Leio repetidas vezes buscando uma sonoridade, um ritmo, uma malemolência que justifique palavras, pontuação, espaço, que autorize o texto. “uma sonoridade, um ritmo, uma malemolência”… eis um vício que bem representa o como eu escrevo. Tem que vir em três, seja lá o que for. 

Eu escrevo como quem repete clichês. Eu escrevo como quem repete, não sei bem o quê, uma prece, talvez. Escrevo a mesma coisa, as minhas mesmas coisas, com outras palavras. Escrevo como quem reconhece e aceita o Outro e a possibilidade da sua ausência. É porque o Outro não está que dirijo a ele o dizer. É porque o Outro me habita e me forja que dirijo a ele um dizer. Um dito como se fosse ponte, só é possível o contato justamente por reconhecer e apontar a distância. Escrevo como quem erra, acho. 

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