quarta-feira, 10 de junho de 2015

Campo de Ourique

Eu estou vivendo em um lugar lindo. Há 965 dias eu vivo em Lisboa. Quase todos eles. Em uns estive pangolando. Em outros, menos, estive no Brasil que não é o meu, a trabalho. Mas na maior parte deles estive aqui, nesse estado privilegiado que é morar em Campo de Ourique.

Em Campo de Ourique se é vizinho de Pessoa. Do Fernando e de outras tantas gentes, muitos deles velhinhos, simpáticos, conversadores, gentis. Há praças. E nas praças há joguinho de damas. E crianças de bicicleta. Em Campo de Ourique também se e vizinho de um cemitério, mas ele se chama Prazeres. É de lá que sai um barulhento e alegre 28 pra percorrer a cidade quase toda, entulhadinho de turistas. Há pastelarias onde, todos os brasileiros cedo ou tarde descobrem, os pastéis são bolos. Mas que importa se elas, pastelarias, tem nomes como Tentadora, possuem lustres lindíssimos e de suas esplanadas a gente vê passar o tempo em trajes bem arrumados?



Viver em Campo de Ourique é acordar cedo e papear no Mercado escolhendo peixe e verduras. Ou acordar tarde e, nesse mesmo Mercado, encontrar almoço pronto em quiosques simpáticos e animados. É poder descer um bocadinho e ficar vadiando no Jardim da Estrela, com um livro na mão pra ver se aprende por osmose. É tomar cafés. Aprender a dizer talho sem sorrir. É se acostumar com ruas tão arborizadas que dá até preguiça sair do bairro. Mas se for mesmo sair há, além do onipresente 28, o 709 e o 774, que tão bem sabem escolher destinos.

Campo de Ourique é tradicional. Lusitano até o tutano. Mas, claro, tenho em duas esquinas restaurantes goeses. E prédios que, eu, com toda minha pinta de guia turístico me apresso em esclarecer: veja lá, esse é do tempo de antigamente. Leio daqui, leio dali e mais essa: Campo de Ourique é um bairro de tradições revolucionárias e republicanas.

Viver em Campo de Ourique tem sido fácil e bom. A não ser quando tem sido difícil e dolorido. Que há dias em que. Pois. Dias em que o ar me falta em saudades. Que o céu não tem o azul certo. Que quero colo de mãe, conversa de irmã, risada de amigo, abraço de filho. Dias em que a comida sobra na panela. Em que não tenho vontade de pôr o pé fora porque é o lugar errado, o bairro errado, a cidade errada. Dias em que as vozes tem um ritmo que me afasta. Em que a solidão amiga de sempre parece-me uma agressiva desconhecida. Dias em que ecoa no peito: “quanto do teu mar são lágrimas de Portugal?” A esses dias, só sobrevivo.

E bem haja a manhã seguinte com as pessoas em cafés, o barulhinho do eléctrico, os frutos do mercado, o sussurrar do vento nas folhas, as escorregadias calçadas, as bengalas, o tempo, mesmo e outro. Sentirei saudades desses dias em Campo de Ourique.

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