segunda-feira, 11 de maio de 2015

Solidões

Das solidões: eu não sei nada das coisas sérias, tipo economia, urbanismo, física quântica, política internacional. Eu não transo gatinhos, bebês engraçadinhos e bichinhos fofos em vida selvagem. Eu tenho péssima memória. Não li os livros certos, não conheço pintura holandesa do sec. XVIII, não sei o nome daquele guitarrista de jazz. Não recito poesias. Não faço escalada, não vou de bicicleta pro trabalho, não tenho habilidades manuais, não pratico esportes, nunca planejei fazer o caminho de Santiago. Não me ligo em cultura pop, não conheço nenhuma banda de rock, não escuto funk, não sei o nome da modelo bacana nem do ator do momento. Tenho certeza que recebi o convite de outra pessoa, estou na festa errada e a qualquer momento vão me descobrir e pedir, com polidez mas sem brechas, que eu tire meu cavalinho da chuva e saia pelas portas dos fundos.

Xêro, chamego, enrosco, dengo. Me atolar no teu pescoço. Como faço chegar a lista de desejos no Papai Noel?

Olho pro calendário com algum susto: o futuro já chegou. Temo que sejam demasiados abraços que espero para as poucas noites que restam. 

Aquela hora em que os dois estão juntos, juntinhos, enroscados. E você percebe que a geografia não ajuda em nada. Você não sabe o que o outro está pensando. Nem mesmo se ele está. E se perguntar, foi-se o momento de aconchego. Só é possível ser feliz na ignorância.



Você olha pra página em branco do word, ela olha pra você, zombeteira. Você tenta disfarçar a incompetência colando trechos de artigos e livros que deveriam fazer algum sentido. A página gargalha. Você pensa, com inveja, nas pessoas que escrevem à mão e podem, nesses momentos, amassar a folha com determinação. 

Cada experiência vivida, cada livro lido, filme visto, cada conversa, encontro, viagem, tudo isso que nos enriquece os dias, diversifica a vida e tal, cada coisinha miúda nos empurra, com mais vigor, para a solidão de ser. O que vivemos  nos aconteceu a nós (mesmo que vivido em conjunto, como significamos é único), o livro e o filme vão ser compreendidos de um jeito próprio, as conversas, encontros, viagens vão nos tornando demasiado particulares. As palavras que escolhemos e nos definem são, ao mesmo tempo, abismo e ponte. Tentativa de. 


Ser só é inevitável. Vou me espalhando em mim, ocupando o que dá, marcando as faltas. Ficar confortável já que a viagem é longa.

E tem aquelas coisas que você só sente ou pensa uma vez a cada quinhentas. Mas sente. Mas pensa. É, também, você. Mas você não conta pra ninguém. Tem vergonha. Porque aquela coisa é oposta ao que você pensa e sente (e todo mundo sabe) nas outras 499 vezes. É que você sabe que se contar você dá materialidade, você dá concretude à coisa. E nunca mais conseguiria falar tranquila do que pensa e sente quase sempre sem se sentir uma farsante. 

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