quarta-feira, 27 de maio de 2015

Palavra Salgada ou Os Temperos da Língua 2

Essa é a segunda resposta do 2o exercício proposto pela Ana Rusche (bem aqui). Eu decidi tentar cumprir a tarefa não um dia, mas em todos os dias da semana. Trocar os verbos cada vez que reescrever até diluir completamente a memória do primeiro texto. Quem sabe onde isso vai dar? ;-)


Eu espero andar como quem flana. Com leveza. Daquele jeito em que cada movimento projeta um sentido, pode atrair, enredar e o agora ressoa, só beleza e graciosidade. Aninharia em um passo, o seguinte, como se a suavidade afiançasse a força, implicando como declinação inevitável o locomover-me e, de repente, uma parada, um respiro. A repetição consolidando-se em arte e suor. Hepburnianamente.

Anelo palavras que andem. Que as palavras convoquem o futuro, mas que nem se divise chegada, quase irrompam da noite, enlevo e corpo.

Andar como quem trama o improvável. Demarcar espaços de formas inusitadas. Como se a própria estrada fosse umbral e convite. Quando se caminha é como se o corpo sintetizasse, em um tempo e espaço únicos e irrepetíveis, som, sonho e movimento. Mover-me como quem vadia. Como quem espeta transitórias figuras no ar. 

Que o andar consagre como o segundo ato de Giselle, a morte do cisne, a Valsa das Flores, como uma coreografia de Deborah Colker, um improviso de Baryshnikov, um dueto com Fred Astaire. Andar como quem se torna ar, borboletando no oco no peito.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...