quinta-feira, 21 de maio de 2015

Asas

É mais ou menos fácil saber quando se chegou a um lugar. Eu sei que cheguei à cidade de Lisboa no dia 15 de setembro de 2012, tá carimbado no passaporte, tá impresso na passagem, tá registrado no blog. Pois bem, cheguei, fiquei bem a vontade, estilo Tim Maia. Mas como sabemos o dia em que uma cidade chegou a nós? Onde está o carimbo, a impressão, o registro? Como sabemos que ela se tornou tão nossa, seus cheiros, sons, cores e gentes? Como sabemos que nos tornamos, um tanto, dela? Que nos tornamos, um pouco, ela? E, principalmente, como pedimos, com educação, que ela, por favor, por gentileza, nos abandone, nos esvazie, abra espaço pra vida que vem senão morremos sufocadas de ausências feito pedra no peito?

E a Liliane me respondeu: “Eu sei que estamos em situações similares mas intrinsecamente diferentes. Eu só queria dizer que depois de chegar aqui e da dificuldade que foi pra mim ficar a vontade (dificuldade que não acabou mas que tem diminuído) eu comecei a pensar que sou como uma lagarta que vai se alimentando das coisas daqui. Dessas realidades. E a lagarta de bucho cheio faz seu casulo. O meu casulo já foi Recife e eu fui embora de lá vim ser lagarta aqui. Vai chegar o dia que serei borboleta e nas minhas asas vão ser bordadas de maracatu e poutiners, de invernos e outonos , de mares, de sol e de sal. Vou ser borboleta e trazer nas minhas asas os forrós de mangaio e as framboesas e amoras colhidas no pé. Vou ser borboleta e andar por aí mostrando as belezas que vi e que sou." 

Daí eu respondi: vou esperar minhas asas azulejarem, então. E fiquei matutando. Sou assim, eu rumino como o boi do Verissimo. Fiquei pensando no meu lagartear esses anos em Portugal. No devorar, faminto, das castanhas em seus outonos, das sardinhas festivas, do lamento do fado, do amarelinho nas estradas primaveris. Das expressões idiomáticas: Fogo! Das lamparinas, eléctricos, esplanadas. No beber, sedento, da Imperial. Me afogar em azul. Do céu, dos azulejos, do Tejo, das paredes dos pequenos prédios. Azulejar-me as asas.




E antes de dormir deito no colo da tua ausência feito vontade, feito saudade, feito desejo e sussurro uma prece: que um dia possa ser ontem. 

E a gente vai deixando de caber na vida da pessoa e a pessoa vai deixando de estar na nossa. Não é falta de bem querer. Não é descaso. Não é, não mesmo, intencional. É o espaço e o tempo lembrando a relatividade de todas as coisas, inclusive o amor.

Cada vez mais. Cada vez menos.



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