quarta-feira, 13 de maio de 2015

A Graúna é Mãe

publicado em 13 de maio de 2012
(trouxe lá do Eu Sou a Graúna, que está fechado no por enquanto da tese)

Hoje é o dia das mães. Eu sou mãe. Laralilá. Adoro comemorações. Sou festeira. O que eu não sou é uma boa mãe. Nem má. Sou, apenas. Acho importante desmistificar isso que ser mãe é padecer no paraíso. É nada. Tem um monte de coisas boas e um monte de coisas péssimas. E uma porção de coisas que normalmente são boas mas que naquela hora são péssimas e uma porção de coisas que são péssimas mas, em alguns momentos, ficam até boas.


Minha mãe é exatamente assim. Dava jeito em tudo (em certos dias em que preciso de colo, ela ainda dá). O jeito que minha mãe dava sempre parece melhor que o jeito que eu dou (em uma análise feita por mim mesma se eu fosse minha filha). Já pro Samuel, o jeito que eu dou parece ótimo. Ah, os pontos de vista!





O certo, certo mesmo, é que eu só sou a mãe que eu sou, isso significando o que quer que signifique, por causa do Almir. O pai. Sim, eu sei, as piadinhas... e é por isso também, aliás. Mas não só. O Almir fez possível uma maternidade mais tranquila e alegre. Ele estava sempre lá. Ele não me ajudou com as fraldas. Ele cuidava disso, trocava, lavava (sim, eram fraldas de pano), engomava, guardava, tudo. É tão diferente. Ele estava sempre lá. Pra desmamar o Samuel, era ele, Almir, que saía do apartamento com o filho nos braços e andava no pátio do prédio por quase uma hora, cantando baixinho, até o Samuel dormir. Ele estava sempre lá. Lembro da primeira vacina, eu tremia que nem vara verde, com dó de machucar/espetar o Samú, e o Almir entrou na sala com o Samuel, segurou durante o procedimento e acalentou depois. Ele estava sempre lá. Ele está sempre aqui. O Samuel, hoje, mora com ele. É ele quem cuida das coisinhas que a nossa sociedade, com seu apego aos papéis, credita às mulheres. Ele que olha se as unhas estão curtas, as tarefas feitas e a saúde em ordem. Sou muito grata por tê-lo como companheiro nos cuidados com o Samuel. Se eu sou a mãe que sou, com defeitos e acertos, é muito por sabê-lo aqui, perto, disponível e pronto pra tocar o barco.

Ser mãe não é a coisa mais importante que sou. Nem a menor delas. Sou eu, como tantas outras coisas que sou. A cada dia vou dando ao termo “mãe” mais a minha cara, o meu jeito, o meu ritmo. Por outro lado, o exercício da maternidade vai me constituindo e caracterizando. Não vem primeiro o ovo nem a galinha, mas um omelete de frango, acho.

O certo é que tem memórias que, quando o peito dói, servem de bússola e alento. Como o dia em que fui, a pé, da Universidade ao escritório, tomando banho de chuva, barriga de sete meses, enorme, a sensação de prazer e liberdade. Ou amamentar. Amamentar pode ser complicado, pra muita gente é. Pra mim foi alegria e prazer desde a primeira vez (tenho vídeo provando, mas acho que ele não seria aprovado pela censura, o outro seio fica lá, exposto e descarado). Ou colocar o filhote pra dormir na rede. Ai, poucas coisas são tão gostosas na minha memória como aquele peso no peito, o cheirinho cativante e a respiração pausada. As vezes que ele fica doente (eu sei, sou terrível) e procura a minha mão. Mesmo grande, 15 anos e mais de 1,90, quando ele tem febre e quer ficar aconchegado, meu coração dá saltos. Nenhuma dessas coisas é natural. Não vem no automático. São construções. O amor não é um dado. É um processo e o filho sempre, sempre, permanece um Outro, acho eu. Estranho, invasor, conquistador. Bárbaro, em todos os sentidos do termo. Quase sempre como a gíria. 

Comecei dizendo: hoje é dia das mães e eu sou mãe. Equívoco, claro. deveria ser: sou mãe do Samuel. Ser mãe não é uma categoria abstrata a qual nos enquadramos. É uma experiência concreta que vai sendo o que que vou sendo e vai me tornando quem sou. Não sou Mãe. Sou a mãe desse moço aí, meio menino, meio rapaz, quase homem. Outro. Admirável, interessante, divertido, enraivado, carinhoso, impertinente. Ele. Eu. Nós. 

2 comentários:

Insana disse...

Mãe não é tudo igual... pois os filhos são sempre diferentes...
bjs Insana

Allan Robert P. J. disse...

Belo, o Samuel.
Ter um filho muda a vida, dá um sentido a tudo. Aprender ensinado e ensinar aprendendo. A vida tem dessas loucuras. E são lindas!

:)

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